InícioOpiniãoO desaparecimento de um cuidador raro

O desaparecimento de um cuidador raro

Manuel da Silva Ramos

Morreu um homem que era uma referência na Covilhã. Há homens assim que pelas suas qualidades éticas, sociais, profissionais ou humanas se elevam acima da banalidade da vida. O senhor Barreiros foi um deles pois várias gerações de covilhanenses sempre o consideraram como fazendo parte das suas vidas e dos seus imaginários, e isto pelo lado mais aparente que foi a sua actividade como massagista do Sporting Club da Covilhã.

Mas o senhor Barreiros também foi outra coisa. O seu percurso como enfermeiro, fisioterapeuta e radiologista é notável. Assim como é impressionante o seu engajamento sindical em prol da sua especialidade. A vida de um homem é complexa e variada e é impossível resumir num artigo de jornal ou num obituário exigente a riqueza de uma personalidade. Lembro-me do senhor Barreiros ( ele está ligado indissoluvelmente à minha infância) entrando no terreno de jogo do estádio Santos Pinto para cuidar de um jogador magoado. Sopra um vento cortante da serra e cai uma chuva gélida.

Eu tenho nove anos (estamos nos finais dos anos cinquenta) e estou de pé nas bancadas de madeira ao lado da baliza que dá para o Poço Grande, entre o meu tio Zé Bouceiro e o Tonito da Narcisa, uns adultos já. É então que vejo um homem baixo,  agasalhado com uma parka escura, entrar no campo com uma maleta e rapidamente pôr de pé o contundido.

Aos olhos do miúdo que eu sou, esta cena constitui um milagre. Nunca mais esqueci. Anos mais tarde, já ele estava reformado e andava sempre nobre e afável pelas ruas da Covilhã, muitas vezes falei com ele e a sua vitalidade e o seu optimismo sempre me impressionaram. Era um reflexo da sua  existência lutadora.

Filho do dono de uma serralharia, o senhor José Gil Barreiros nasceu em 5 de Novembro de 1920. Aos dezanove anos concluiu o Curso Técnico da Escola Industrial Campos Melo da Covilhã. Em 1940 foi trabalhar para o Hospital da Santa Casa da Misericórdia com o doutor António Gomes de Oliveira, em Radiologia e Traumatologia. No ano seguinte vai para a tropa e até 1943 cumpre o serviço militar no Hospital Militar Principal.

Estes anos passados em Lisboa são decisivos. Mercê da experiência profissional trazida da Covilhã, trabalha no Serviço de Radiologia e voluntariamente no Serviço de Traumatologia do doutor Bastos Gonçalves e Fisioterapia do doutor Manuel Lourinho. Na Escola de Saúde Militar tira a seguir o curso de Técnico de Radiologia e passa a dirigir no Hospital da Estrela os Serviços de Radiologia como Técnico Responsável. Também foi aí monitor de cursos.

E não é tudo. Ainda na capital, colabora em actividades privadas com o doutor Carlos Santos e com outros radiologistas. Em 1946 obtém o curso de Enfermagem na Escola de Enfermagem doutor Artur Ravara. Com toda esta bagagem, vai trabalhar para o banco do Hospital de São José como enfermeiro. Esteve aqui um ano, na equipa do doutor Manuel Frazão. Sempre com a ambição de saber mais, estagia no Serviço de Fisioterapia do Hospital de São Lázaro.

Regressa à Covilhã e é o primeiro enfermeiro laico a trabalhar com as enfermeiras religiosas no velho Hospital da Santa Casa da Misericórdia. Este emblemático estabelecimento estava situado a dois passos do estádio Santos Pinto e durante muitos anos a vida do zeloso cuidador andará entre um e outro.

Frise-se que, imediatamente em 1949, ele foi contratado como enfermeiro massagista pelo Sporting Club da Covilhã, funções que exercerá  durante cinquenta anos. Foi delegado concelhio do Sindicato dos Enfermeiros de Lisboa, entre 1953 e 1960, e, de 1960 a 1964, foi delegado sindical dos Enfermeiros da Zona Centro. Primeiro técnico de Radiologia a exercer no distrito de Castelo Branco, de 1955 a 1985 trabalhou no Hospital da Covilhã no serviço do doutor Júlio Pina Bicho.

Foi sócio fundador da Associação Nacional dos Técnicos de Radiologia e em 1964 obteve outro diploma, também de Técnico de Radiologia, pela Escola de Técnicos dos Hospitais da Universidade de Coimbra. O seu curriculum enriqueceu-se mais em 1965 e 1972. Neste ano conclui em Lisboa um curso de Prevenção e Socorros de Urgência e naquele volta a frequentar os Hospitais da Universidade de Coimbra para tirar um curso de especialização em Radiologia Médica. Em 1973, foi organizador do 1º Congresso Nacional de Enfermagem.

Mas o senhor Barreiros não descurou o privado. Esteve com o doutor Alfredo dos Santos Marques e trabalhou na área dos Acidentes de Trabalho e em Fisioterapia. Também durante mais de vinte anos assistiu profissionalmente o doutor Amândio Leitão em empenhos cirúrgicos de oftalmologia e também colaborou, durante um ano,  com o doutor Guilherme Penha em otorrinolaringologia. Reformou-se,  por limite de idade, aos setenta anos.

Foi sócio fundador do Clube Nacional de Montanhismo e fundador do Orfeão da Covilhã. Em 1990, foi homenageado pelo Rotary Club da Covilhã e ,em 1991, pelo Sporting Clube da Covilhã. Em 1993, a Câmara Municipal da Covilhã, entrega-lhe a Medalha de Mérito Municipal e no ano seguinte a RDP Centro galardoa-o com o Prémio de Revelação dos Melhores do Desporto.

Morreu o senhor Barreiros no Lar de São José, onde foi Presidente da Assembleia Geral durante mais de dois decénios, com 97 anos e  nas vésperas de Natal. O passamento do nosso conterrâneo foi eclipsado pelas festividades da época que hoje se resumem a consumismo, delírio de prendas e hipocrisia cara. Aliás o Papa Francisco lembrou isso,  falando de « consumismo e banalidade.»

A vida extraordinária do senhor Barreiros  e os seus contributos para a colectividade foram mergulhados numa indiferença silenciosa, devido a estes excessos que não têm nada de cristão. E pouca gente compareceu no funeral. A cidade foi madrasta para com um homem que praticou o bem. A Covilhã deve-lhe agora uma justa homenagem em que a memória e a gratidão estejam presentes.