InícioOpiniãoQue se dane, mas não no meu turno

Que se dane, mas não no meu turno

Nuno Francisco

De aviso em aviso até ao resultado que há de chegar e que todos já pressentimos qual é. A comunidade científica voltou, esta semana,  a lançar um novo aviso à humanidade sobre os danos “irreversíveis” que estão em curso no planeta.

O primeiro alerta global foi dado em 1992 por 1.700 cientistas de todo o mundo, e de então para cá, segundo o Público, “a quantidade de água doce disponível per capita teve uma redução de 26 por cento, houve uma queda na captura de peixe selvagem; um aumento de 75 por cento de zonas mortas nos oceanos; uma perda de 121 milhões de hectares de floresta; um aumento nas emissões globais de CO2 (este ano vão ser lançadas mais 36,8 gigatoneladas para a atmosfera) e nas temperaturas médias no planeta; um aumento de 35 por cento da população humana  e uma redução de 29 por cento nos vertebrados”; ou seja desencadeou-se uma extinção em massa, a sexta em 540 milhões de anos.

Algo que enquanto humanidade não queremos nem devemos registar no currículo. Passaram 25 anos e, ambientalmente, quase tudo piorou dramaticamente no planeta. Das poucas boas notícias que temos, uma foi a redução do buraco do ozono devido a decididas medidas transnacionais que foram tomadas no final dos anos 80 do século passado para travar a emissão de gases CFC nocivos.

Em 2017, cerca de 15 mil cientistas de 184 países, entre os quais 200 portugueses, voltam a lançar um  novo apelo global, num cenário ambiental  mais dramático do que aquele que deu origem ao primeiro grande grito de alerta. Hoje, muito daquilo para o qual fomos avisados já está a ocorrer. O planeta continua a aquecer, a biodiversidade está mais frágil, os padrões climáticos estão a ameaçar a sustentabilidade de vastas áreas do globo  e o bem-estar de muitos milhões de pessoas que se vão confrontar com a falta de água, com a degradação dos solos e a total incapacidade de neles se gerarem alimentos.

Fenómenos meteorológicos  extremos como secas cada vez mais severas e prolongadas ou muita pluviosidade concentrada em pouco tempo, originando inundações já não são avisos, é realidade. O planeta está a dar  sinais de mudança, num processo que se irá agravar nas próximas décadas, com consequências trágicas para a humanidade. Isto se não fizermos nada de definitivo, isto se não deixarmos  de olhar para o exercício da cidadania ou do poder político como um turno que nos é atribuído e, durante o qual, temos que passar o mais desapercebidos possível, sem decidir nada de incómodo, sem fazer demasiado barulho, sem incomodar, mantendo ou melhorando o status quo nem que seja à custa da limitação do futuro.

E quem venha a seguir que se desenrasque porque, no nosso turno, tudo deve continuar a ser como sempre foi, como se nada se passasse, como se os rios poluídos e quase secos continuassem vívidos, como se a vida continuasse exaltante, mesmo onde já não há vestígios dela, como se as  florestas continuassem frondosas onde apenas há cinzas. Ou seja, continuar o nosso turno como se nada se passasse. Mas passa. Basta olhar para a seca que grassa na Península Ibérica. Chegará o dia em que não poderemos dizer “Que se dane, mas não no meu turno!”, porque pouco haverá a legar. A única questão é saber quão perto estaremos desse ajuste de contas.