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Combater o pessimismo

Jorge Seguro Sanches*

Os dois últimos ciclos de governação em Portugal trouxeram-nos duas formas completamente diferentes de, como Povo, estarmos perante as dificuldades e as oportunidades do país.

Abordar os problemas evidentes e estruturais do País com pessimismo e sem esperança foi talvez uma das piores receitas da última década que transportou aos problemas ainda mais desânimo e desesperança do que a própria gravidade das situações vividas.

Assim foi com questões, como o encerramento de tribunais e de outros serviços públicos ou mesmo com a extinção de freguesias que, mais do que o efeito económico, criaram a ideia de que havia regiões do país em que não se devia investir, ou pior, se devia desinvestir.

As nossas terras, do nosso interior, precisam também, mais do que análises pessimistas, de visões realistas que acrescentem, com esperança, novos rumos de sustentabilidade para a região.

Nas áreas em que trabalho, a energia e os recursos geológicos, é essa perspetiva que procuramos colocar em ação.

Com efeito, a energia é, um dos mais fortes exemplos da importância estrutural dos recursos locais do interior para a economia do país.

Em concreto, os nossos distritos de Castelo Branco e da Guarda são, no capítulo da produção elétrica, excedentários em termos de produção, contribuindo para a necessária descarbonização do setor elétrico e para a sustentabilidade energética nacional.

Nada de novo: tal deve-se em grande medida ao aproveitamento de algumas (das várias)  fontes renováveis (através da produção hídrica nas nossas barragens, depois com a eólica e mais recentemente com a energia solar e, no futuro, com a biomassa florestal), o qual permite dinamizar dezenas de pequenas e médias empresas no país e na região, com criação de riqueza e postos de trabalho, muitos qualificados.

Mas são-no também ao nível dos recursos geológicos, quer pelos recursos potenciais, quer também por aqueles que são atualmente explorados. É o que se passa com as minas da Panasqueira que constituem a 3.ª maior mina em exploração do País em termos de volume de negócios.

Mas também as potencialidades da região convergem com as tendências de desenvolvimento da economia a diferentes níveis. A região, as empresas e os seus autarcas têm sabido acompanhar a digitalização da economia com a criação e captação de investimento nas tecnologias de informação e na formação de quadros qualificados através das, cada vez mais, conceituadas instituições de ensino superior da região.

Por outro lado, o tecido industrial da região conseguiu realizar os investimentos na modernização de processos, inovação e sustentabilidade operacional, tornando-a mais competitiva face ao mercado externo, e mais resiliente em períodos de retração económica. Também o turismo se tem reinventado e reforçado, tanto na oferta de alojamento disponível, como na sua articulação com a natureza e o termalismo, ou na valorização dos produtos endógenos em articulação com os produtores. O setor agroindustrial acompanha também hoje as tendências, criando escala e incorporando estratégias de valorização comercial, muitas vezes, aliada à inovação de produto, ou à sua promoção além-fronteiras.

As regiões e o interior não podem estar fatalmente condenados a um declínio sem fim. Há oportunidades e potencialidades que requerem a atenção dos responsáveis públicos para a sua valorização. Para além da sua dimensão económica, esta visão deverá integrar uma nova perspetiva sobre o ordenamento do território e de valorização da floresta, o que há muitos anos não era colocado na agenda nacional.

Por sua vez, a sua posição estratégica face ao mercado europeu deve ainda mais valorizada com a ambicionada e agora finalmente decidida e lançada modernização do troço ferroviário entre a Covilhã e a Guarda, juntando assim várias infraestruturas que a região já conquistou.

Todos conhecemos as dificuldades do interior. O ciclo vicioso que parte da escala e da distância face a polos urbanos nacionais, de um País já ele periférico do centro da Europa tem de conseguir atrair emprego, conhecimento e investimento. Só assim o melhor que a região tem, os seus recursos humanos, não teimarão em abandoná-la.

A evolução demográfica é um sinal claro das dificuldades existentes e a sua evolução, nas últimas décadas, demonstra que o problema não é, nem recente, nem fácil de resolver.

É por isso, que é necessário continuar o trabalho que está a ser feito, criando-se as condições para que, em muitas situações, a boa qualidade de vida existente na região seja acompanhada de oportunidades em termos de emprego e de criação de fatores de atratividade, nomeadamente ao nível cultural, escolar e desportivo. A este respeito é essencial a cooperação em rede, envolvendo autarcas e agentes económicos na execução de projetos conjuntos essenciais ao desenvolvimento regional.

Da parte do Governo há empenho na promoção de um modelo de desenvolvimento para o interior num esforço de coesão territorial, atenuando as assimetrias existentes, e correspondendo aos desafios económicos emergentes.

*Secretário de Estado da Energia