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Cicatrizes

Nuno Francisco

O outono vai entrando por entre as veredas dos dias. Em volta, o horizonte está carregado de um infame cinzentismo que, da Estrela à Gardunha, nos lembra mais uma guerra travada e outra vez perdida contra um erro que se sucede sem que consigamos fazer aquilo que há muito deveria ter sido feito em termos de gestão do espaço comum. A natureza sempre se vai encarregando de tentar reparar todos os disparates e incúrias que vamos somando ao longo de tantos anos.

Voltar a ver a Gardunha e a Estrela tal como eram antes dos grandes incêndios deste verão irá levar muitos anos, os anos que a natureza, na sua infinita paciência, demorará a cobrir de verde (outra vez) aquilo que deixámos que se tornasse cinza. Enquanto vamos permitindo que tudo isso se passe, nem reparamos que estamos sempre a viver no renascer e nunca no usufruir em pleno daquilo que é um dos nosso inigualáveis trunfos: a natureza.

A Gardunha ainda não estava totalmente refeita do grande incêndio de 2005 e já estava novamente arder de fio a pavio. Sete mil hectares em três dias de incêndio. Usufrui-se e vive-se o recobro da fauna e da flora outrora dizimada e, de repente, volta tudo ao estado comatoso. Com a chegada da candura do outono, era bom que todos pensássemos na insanidade disto tudo; deste contínuo processo destrutivo que aceitamos sobre o nosso património natural. E se não podemos evitar que o fogo nos volte a ameaçar, ao menos que saibamos corta-lhe o caminho e conter a fúria com uma gestão inteligente das florestas. É o mínimo que nos cabe enquanto que por essas serranias fora aguardamos, mais uma vez, que a natureza cicatrize aquilo que por ação e, sobretudo, por omissão permitimos.

Entretanto, a Unidade de Missão para a Valorização do Interior apresentou o Programa de Revitalização do Pinhal Interior. Um programa que segundo as notícias tem “dois eixos estratégicos, centrados no renascer da floresta e na revitalização económica e social dos municípios afetados pelos incêndios”, sendo que “o objetivo é usar este caso [programa] como um projeto-piloto e replicá-lo depois a outras regiões com características semelhantes”, segundo explicou o coordenador da Unidade de Missão Para a Valorização do Interior, o beirão João Paulo Catarino. O sucesso deste programa será a garantia de que a Unidade de Missão constará no livro de um pós-2017;uma esperança de que a estratégia para a floresta nacional mude. Veremos.

Mas tudo isto coincide com outro mapa e paisagem, neste caso, a paisagem humana. Uma recente reportagem de uma televisão, exibida, esta semana, no bloco de informação da hora de almoço, dava-nos conta daquilo que seria a imagem de um “Interior deprimido”. A história, em si, não traduz nada de novo – pelo menos para quem cá vive – pois relata a acentuada quebra populacional de um concelho encravado neste “interior deprimido”. Não é, de facto, nada de novo, mas é… tão familiar quanto verdadeiro. São as contas do costume, a subtrair. Nada que espante, mas que, nem por isso deixa de ser relevante: A floresta continuou a arder no verão e com a chegada do outono, alguém nos relembra que o “interior” anda deveras “deprimido” porque… não tem gente. Pudera!Como alguém dizia: “Isto anda tudo ligado”.