InícioOpiniãoA cherovia em todos os seus estados

A cherovia em todos os seus estados

Manuel da Silva Ramos

O Festival da Cherovia da Covilhã é um evento gustativo, cultural e convivente a que não posso faltar. É que a cherovia é a minha bela infância em riste. Na verdade, este tubérculo branco, enigmático para o miúdo que eu era, aparecia magicamente à mesa familiar sob os cuidados sempre excessivos da minha mãe. Eram travessas e travessas de loiras e tenrinhas cherovias que eu devorava sem moderação.

Montado na minha ingenuidade e no meu apetite, eu era automaticamente um cavaleiro andante sem temor nem freios, um real paladino da cherovia, minha nobre dama. Assim nos dias 21 e 22, mais uma vez, assisti à glorificação da pastinaca. E diga-se desde já: tirei a barriga de misérias. Lembram-se de há um ano lhes ter falado do chefe Rosário que operava no antigo Largo do Feijão, nas Portas do Sol, e que ofereceu aos covilhanenses pratos suculentos confeccionados com cherovias?

Pois este ano ele reincidiu mas mudou de local e instalou-se no miradouro das Portas do Sol. Diante do panorama belíssimo da Cova da Beira, com a Serra da Gardunha ao fundo e as suas mesas azuis com toalhas amarelas contra a muralha, o restaurante à la carte do nosso chefe Rosário encantou autóctones e estrangeiros. Na quinta-feira passaram por lá vários casais espanhóis, alguns ingleses e muitos emigrantes. Que a misteriosa cherovia atraia turistas à nossa cidade é já uma real evidência e isso deve motivar ainda mais os responsáveis por esta festa singular.

Na ementa tão inventiva:  sopa de cherovia; cherovia  frita com tomilho e alho; costeletão de porco na brasa com puré de cherovia; bacalhau frito do chefe com rodelas de cherovia cozida e legumes salteados; requeijão tostado no forno com farinha de amêndoa, mel e cherovia. Na rua 1º de Dezembro disseram-me que tinha de provar os fidalgos. Em boa hora o fiz. Fui ao Café Centro Cívico e deliciei-me com esta confeitaria sublime. O fidalgo é uma massa folhada que faz lembrar o pastel de Tentúgal, que se desfaz na boca em mil partes deliciosas e que é recheado com doce de ovos e cherovia. Feito pela padaria da Ramalha, ele é desde já uma das mais belas invenções desde que o festival existe.

Continuei a passear-me por entre tasquinhas e lojas de artesanato regional e locais de restauração, e de repente, dei com os estudantes brasileiros. No próprio local onde moram, propunham ao passante produtos típicos do seu país, espicaçados com cherovia. A coxinha deles era simplesmente deliciosa. Esta festa é também dos estudantes que participam com tuna e tasquinha, ou  simplesmente passeiam, comem  e bebem. Rui Jesus, que pertence à Desertuna e que colaborou na organização do certame, declara-me que « um dos grandes objectivos é mostrar aos novos alunos da Universidade o que é a cherovia.»

Na rua 6 de Setembro entrei numa ruína sem telhado que três artesãos transformaram num oásis de serenidade. Caiaram as paredes, colocaram toldos, pareciam negociantes do deserto em tenda. Gonçalo Saraiva mostrava no seu canto produtos regionais e essências da Serra, Catarina Vieira as suas criações de bijuteria artesanal com couro, cortiça e pedras e por fim Miguel Gigante expunha os seus esplêndidos casacos de senhora em burel. No dia seguinte fui jantar à Pizzeria Santa Maria onde Carlos Roque, outro grande cozinheiro que abraçou a cherovia com as duas mãos,  se esmera em dar a conhecer este legume mágico.

Já lá estava um casal de espanhóis a petiscar cherovias. E não tardaram a chegar uma revoada de emigrantes que vive em França. Disse-me o mestre dos fornos que, na véspera, um casal de franceses entrara no seu restaurante e depois de comer bem cheroviamente partira todo contente na sua moto BMW, lançando um belo au revoir.

A minha refeição foi sumptuosa. Comecei por umas cherovias do Ferro, fritas, consistentes e muito saborosas. Depois ataquei uns ovos mexidos com farinheira e cherovia. Veio a seguir um magnífico grão cozido com porco e cherovia. Esta adocica o conjunto e fá-lo menos pesado. Continuei com um fantástico arroz de carqueja, bem composto com farinheira, morcela e chouriço. A cherovia integrada lenifica o arroz e faz um prato saborosíssimo. Estas maravilhas foram regadas com um Entre Serras, bem frutado e companheirão. E terminei a refeição com uma tartelete de cherovia e um licor de cherovia que lembrava a amêndoa amarga.

«Depois de dez anos, esta edição é a maior de sempre, com mais ruas, expositores, receitas, mais moradores que colaboram no embelezamento das suas casas e ruas e tudo isto contribui para o espírito de comunidade que está a perder-se nos dias de hoje» diz-nos o professor Eduardo Cavaco, o fundador, o mentor e o principal responsável por este festival. E conta-me este alentejano radicado na Covilhã, que  um dia, quando veio trabalhar para a Faculdade de Ciências da Saúde, ao ver uma travessa de loiras cherovias perguntou: « São filetes de peixe?» Logo lhe responderam: «Não, são cherovias!» Ele provou e ficou logo apaixonado.

Este evento gastronómico e cultural  não morrerá nunca enquanto esta alma voluntariosa assombrar as ruas e ruelas da nossa cidade. Obrigado, mais uma vez, professor Cavaco! Este ano foi o cúmulo. Quarenta mil pessoas passaram por esta festa surpreendente. O professor pode estar contente pois além dos autóctones, surgiram também visitantes de outras partes do país e até estrangeiros. Um sucesso consolidado e que dá sempre um prazer incomensurável àquela gente que gosta de comer e de convivialidade.