InícioOpiniãoCastanheira: 44 anos de cenografias

Castanheira: 44 anos de cenografias

Manuel da Silva Ramos

Castelo  Branco, ano de 1952. É o nascimento de José Manuel Castanheira, um dos mais inventivos e audazes criadores do nosso Portugal de hoje. Para este cenógrafo, reconhecido internacionalmente, tudo começou na Beira, em Escalos de Cima, no grande pátio da casa dos pais. Na altura das festas religiosas, o pátio enchia-se de gente e o miúdo Castanheira aproveitava-se da ocasião para brincar ao teatro.

Estendia com a ajuda de um amigo um lençol branco e a magia de uma outra vida vinha rapidamente à superfície dos seus olhos. Nunca mais parou. A sua primeira cenografia é de 1973 e para a peça” A Boda dos Pequenos Burgueses” de Gorki. E até hoje foram mais de 250 cenografias que ele produziu. O CAE ( Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz) apresenta actualmente, e até ao dia 14 de Janeiro de 2018, uma retrospectiva da sua obra cenográfica, uma selecção feita pelo artista. E é um encantamento e uma verdadeira descoberta.

Aqui percebemos a originalidade de uma obra através do método rigoroso dos seus processos criativos que incluem desenho, maquetas, vídeo, pintura e até reflexões ensaísticas. É um verdadeiro prazer percorrer as extraordinárias fotografias das peças onde a cenografia de Castanheira iluminou o propósito do encenador e pomo-nos a pensar nas maravilhas que perdemos ao longo dos anos. Porém, noutras reconhecemos o choque estético pois estávamos lá. Espantamo-nos com o barco fabuloso criado por Castanheira para uma peça de Max Aub em que judeus errantes fogem pelo mar para escapar à fúria hitleriana. Mas identificamos a cidade feita de arquivos metálicos para a peça “ O Que Diz Molero”, uma adaptação do livro homónimo de Dinis Machado e encenada pelo brasileiro Aderbal Freire Filho, e que nós vimos e aplaudimos no Teatro Nacional  D. Maria II,  em 2006. Castanheira trabalhou com oitenta encenadores em treze países. Em Portugal, a sua actividade foi multíplice mas também foi forte  em Espanha e no Brasil. É isto que levou Georges Banu, crítico de teatro mundialmente respeitado, a dizer simplesmente do nosso amigo beirão: « Com Castanheira efectua-se uma verdadeira visita ao panorama teatral  português» As últimas realizações de Castanheira, que não figuram nesta exposição, mas que nós vimos, foram mais dois tours de force portentosos.

No Teatro São Luiz, há um mês, o cenógrafo realizou um extraordinário cenário feito todo em canas de bambu, pintadas de verde escuro, para a peça de Jean Genet “ Os Negros” e encenada por Rogério de Carvalho. E, há menos de quinze dias, descobrimos em Almada o fantástico cenário de uma biblioteca com perto de três mil volumes para a peça “ O Cerco de Lisboa”, uma adaptação do livro do José Saramago. Quer isto tudo dizer que estamos perante um criador extremamente singular que orienta sempre o seu trabalho em direcção à poesia. A criatividade constante de Castanheira e o seu modus operandi colocam-nos sempre em dupla vantagem: por um lado entramos numa peça pelo texto e pelo jogo dos actores mas nunca esquecemos o lugar distinto onde se passa a acção. Aconteceu-nos já ( felizmente que foi uma só vez!) apreciarmos unicamente a cenografia de Castanheira e desleixarmos o texto inábil. Pintor soberbo, ele tinge por vezes o palco de fabulosas cores e isso é mais um atributo fundamental para o êxito da representação. Nunca mais esqueceremos “ O Avarento” de Molière em que a casa francesa estava pintada com um requinte de cores a fazer empalidecer de inveja qualquer pintor consagrado.

Nesta primeira sala da mostra ainda podemos assistir através de vídeos à descoberta de certas cenografias animadas do artista, à sua participação em mesas-redondas sobre teatro e até à projecção de uma pequena curta-metragem muito poética em que Castanheira se transforma em anjo e observa em cima de um escadote o mundo terrestre. Na segunda sala, temos o Castanheira pintor, com os fascinantes cartazes de espectáculos teatrais onde o artista iguala os maiores cultores do género que são os polacos. Cartazes para o Teatro das Beiras, e para muitas outras companhias, e no meio, o célebre cartaz de 1993 para o Centro Georges Pompidou em Paris, onde Castanheira teve uma retrospectiva dos seus 20 anos de carreira cenográfica. É também aqui que vemos o Castanheira ensaísta, reflectindo sobre a sua a arte, em extractos dos seus dois livros“ O Tempo das Cerejas” e “ Desenhar Nuvens”, ambos publicados pela corajosa editora Caleidoscópio que já tinha editado anteriormente o livro mais emblemático e mais completo do artista beirão denominado “ Castanheira- Cenografia”. Capas de livros ( de Alberto Pimenta, Heiner Muller, etc), de revistas, de magazines literários, completam o conjunto onde o artista esbanja admiravelmente o seu talento.

Há duas frases do Castanheira ensaísta  de que eu gosto muito:« Como cenógrafo sempre tive uma visão privilegiada dos espectáculos. Interessa-me o fenómeno do espectáculo. Trabalho sobre o mistério dos fluxos que se geram entre o actor e o espectador. » E a outra é:« Inevitavelmente no teatro sempre estarei para testemunhar sobre a enorme responsabilidade de viver.»Num país cada vez mais alheado das coisas culturais e em que o orçamento do Estado para a Cultura não chega ao 1% do PIB, há artistas que remam contra a corrente tumultuosa da indiferença e da falta de verbas no meio teatral. O José Manuel Castanheira é um deles. Estes seus 44 anos de cenografia são uma festa da coragem e da vontade indómita. Parabéns pois ao homem que faz uma cenografia magnética!