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Carta ao Zé que se foi

Manuel da Silva Ramos

Meu caro Zé Dalmeida: agora que não conseguiste afastar a Ceifeira com o teu traço genial deixa-me dizer-te isto: a morte gosta sempre de se mostrar limpinha, contrariamente ao que tu fizeste, tu que sempre a mostraste grotesca, cómica, sexualizada. Foi por isso que ela se vingou num momento em que estavas distraído.

Meu caro Zé, conheci-te, lembras-te?, naqueles anos em que a nossa juventude ardia por todos os lados como mil sóis de esperança. Tu chegavas com o teu cabelo preto, bem molhado, depois de estacionares o teu Fiat vermelho, perto da Grã-Fina. Já te esperávamos, nós, os boémios da literatura. Tu já trabalhavas e nós, estudantes da universidade, tínhamos um grande respeito por ti porque tu já ganhavas a vida como designer gráfico.

Deixávamos o café de Entrecampos e embrenhávamo-nos na noite como lobos famintos. Já nessa altura tu eras um espírito abertíssimo ao mundo, sempre com os ouvidos à escuta do visceral e do insólito. Lisboa nos finais dos anos 60 era uma cidade copófona e surreal. Tu eras o nosso chofer e ouvinte empedernido.

Entretanto, não tardei a partir para França e quando regressei, em 1997, encontrei-te famoso cartoonista, várias vezes premiado (já tinhas ganhado o Stuart e  duas vezes o Bordalo) e com uma agência gráfica no Parque Mayer. Foi aí que te fui encontrar numa tarde para trabalharmos juntos, nas “Coisas do Vinho”. Tu, com o teu grande poder inventivo que te caracterizava, tinhas arranjado umas caixas de madeira onde geralmente repousam as garrafas de vinho e pintaras a superfície que faz de guilhotina. Eu, pela minha parte, devia escrever uns poemas cambaleantes.

Com as caixas e a versalhada fizemos uma exposição no Chafariz do Vinho que foi um êxito. Ainda hoje conservo a caixa que tu me deste (“ A Tasca do Manel”).  Depois tudo transitou para livro.  A nossa colaboração continuou. No teu atelier do Parque Mayer fizeram-se os primeiros números do & Piimba, para o Jornal do Fundão. Tu, não só agias graficamente como tinhas uma página de crítica política . A tua caricatura do Guterres era poderosíssima.

Continuaste a entusiasmar-te por outros artistas e a  criares com eles (o teu entusiasmo era já criação) e foi assim que fizeste esse originalíssimo livro com o pianista António Pinho Vargas “ Humor em Sustenido”, que antes foi exposição. E depois foi o escritor Fernando Paulouro Neves que veio ao baile. Saiu o esplendoroso álbum “ Os Fantasmas Não Fazem a Barba” , com extraordinárias ilustrações tuas num texto que é um dos melhores livros de contos dos últimos vinte anos. Um dia idealizaste pôr os poetas portugueses em barro e telefonei ao Nuno Júdice, grande poeta, para estar presente na inauguração da exposição no Museu Bordalo. Eram para aí umas vinte magníficas figurinhas. A do Alberto Pimenta era a mais  verídica. A minha , que eu conservo com muito carinho, tem gravata e um sobretudo cor de café com leite. Foi uma sessão memorável.

Das tuas criações que me deste, sempre oportunas, poéticas e delirantes, possuo duas que amo muito: o quadro “ O Mil Tetas”, onde tu me representaste rodeado de um ror de seios, relembrando o meu livro “ Os Três Seios de Novélia ” e o cartaz para apresentação do meu romance “ Viagem com Branco no Bolso”, no Centro Nacional de Cultura, onde estou entre o anão de Arcozelo e o Gigante de Manjacaze que urina fortemente . Há dois meses fui a tua casa e mostraste-me a  nova colecção de figurinhas eróticas e eu fiquei entusiasmadíssimo.

Era mais uma vez um elã teu, politica e sexualmente incorrecto, em oposição ao tempo em que vivemos, de normalidade e uniformidade e cheio de agentes culturais inodoros e organizações pseudoprogressistas repressivas. Saí de tua casa deslumbrado com mais esta tua prodigiosa invenção, a contracorrente do que se faz artisticamente por aí onde reina o oportunismo e as regulamentações sexuais. Tu ousavas cuspir neste século tão pobre de poesia e inconformismo.

Na quinta-feira, antes de te ires, disse ao teu filho quão é importante que esta colecção seja mostrada, último manguito que fizeste a este mundo regular. Zé Dalmeida, meu grande irregular: tu possuías o dom dos autênticos poetas que é destronar a realidade para movimentar outra mais sensível; tu possuías a virtude que todo o ser vivo deve ter e que é a generosidade sem retribuição; e por fim,  possuías em ti essa humildade beirã que é o apanágio dos mais sábios criadores. E nunca tiveste peneiras.

E deixa que te relembre isto: tu foste o maior caricaturartista dos últimos quarenta anos depois do Vilhena,  fustigando sempre a sociedade portuguesa com acinte e sem dó. Meu caro Zé, não conseguiste fazer manguito à morte mas na vida e na arte foste um senhor todo poderoso cheio da liberdade dos criadores autênticos. Nunca te esqueceremos.