InícioOpiniãoO cadeado na porta

O cadeado na porta

Nuno Francisco

Já foi exaustivamente referido o disparate que é olhar para a gestão de um território como se de uma mercearia se tratasse. Mas é inevitável voltar a este assunto a propósito da recente apresentação do estudo “O mundo rural e o desenvolvimento económico e social de Portugal”, realizado por AugustoMateus para a Câmara Municipal de Idanha-a-Nova. O documento  elenca um conjunto de prioridades para a valorização do mundo rural e que é alvo de tratamento nesta edição do Jornal do Fundão e que se traduzem na abordagem de eixos de ação que não muito distantes de outros que já foram vertidos por outras análises.

O que merece um sublinhado foi a referência, na apresentação, à necessidade de existirem “boas escolas, creches e hospitais” para que estas geografias possam garantir poder de atração e e de  fixação de pessoas; condições fundamentais para se criar riqueza. Paremos por aqui e olhemos, então, para a gestão do território que foi feita nas últimas décadas.

Primeiro: Nada se fez para travar o despovoamento. Choram-se e lamentam-se os números que deixam a nu a nossa triste realidade, lançam-se ao ar umas palavras de esperança e avança-se para a gestão do vazio.

Segundo: É aqui que entra a visão curta, o aqui e agora da emergência dos tostões poupados em lugares onde sempre se poupou nas prioridades e nas preocupações. E vieram, apenas, para levar os despojos. Fecharam-se escolas porque não havia alunos, extinguiram-se ou enfraqueceram-se serviços públicos porque são poucos os que os usam. Esta é a política da reação. Quem perdeu tempo a preocupar-se e, sobretudo, a atuar com determinação sobre as causas do acelerado ritmo de abandono de um território?

Pois é; é tão mais fácil colocar cadeados nas portas; é tão mais simples levar o pouco que resta a quem não tem poder de reivindicação. Não parece ser demasiado complicado perceber que cada serviço público que se retira do território é mais um gritante sinal de abandono; um abandono que não se conjuga apenas no tempo presente, mas que fica a ecoar para o futuro. Um sinal de que não se acredita na recuperação demográfica, um sinal de que este é o fim da linha. Quem, mesmo tendo hipótese de ter um emprego, não pensa várias vezes antes de ir residir para territórios onde a rede de serviços fundamentais está num estado de profunda debilidade? Antes de falarmos em “boas escolas”, temos que falar em “escolas”; antes de falarmos em “bons hospitais”, temos que falar em hospitais.

Os sinais de desistência do território estão à vista de todos. Não há plano de ataque ao atual estado das coisas que vingue se o próprio Estado não tiver a capacidade de resiliência, a determinação de deixar bem evidente a todos que, apesar de todas as dificuldades demográficas destas geografias, não arreda pé, nem troca as suas funções pelas de uma comissão liquidatária. E que percebamos, de vez, que na tangibilidade da escassa poupança  está a escapar algo bem maior e não quantificável: a forma como se olha para o futuro do dito mundo rural. E entender que não é com cadeados nas portas e no alargar das distâncias aos serviços fundamentais que podemos chamar a esperança que nos anda tão fugidia. Abram-se as portas, de vez. E depressa.