InícioOpiniãoO bem-estar desaconchegado dos dias que passam

O bem-estar desaconchegado dos dias que passam

José Páscoa

O velho provérbio “Sol na eira e chuva no nabal” resume, em si mesmo, um extenso rol de ensinamentos. Os provérbios eram a velha forma de condensar informação importante e de a reter para benefício dos mais jovens. Em boa verdade este provérbio é um oximoro, pois a realidade mostra que ter o bom de tudo é impossível.

Em cada estação há bom e mau. E nos últimos tempos bem sentimos o efeito da falta de chuva, com uma seca que perdura e prejudica tudo e todos. Reduzimos a nossa fatura de aquecimento e talvez passemos a pagar mais pela da água. Mas nada dura para sempre e a chuva voltará, de modo a introduzir uma redução do custo dos vegetais no supermercado. A forma de resolver a contradição é guardar água dos tempos de chuva para os de Sol, garantindo que beberemos hoje e também amanhã.

Apesar da novela Trump, com todos os seus mexericos, os americanos têm hoje uma economia vibrante e pujante. Este dinamismo é alimentado pelo crédito, sendo que a maioria dos americanos reduziu o nível de poupança a menos de 3% do rendimento disponível. Valores piores só em 2006, quando ocorriam níveis negativos de poupança, mesmo antes do rebentar da crise de 2007. Como garantia para o crédito ao consumo os americanos dão a casa própria. E metade deles não possuí uma poupança para assegurar a idade da reforma, nem tão pouco dispõe de 300 euros extras, se necessários, para uma despesa de emergência em determinado mês.

Os americanos, fartos dos tempos de crise, agarraram os novos tempos com as duas mãos. Recusam-se à contenção e ao derrogar do prazer do consumo para o futuro. Querem-no hoje e já. Toda esta euforia estimula a economia, que reage em alta, garantindo a Trump índices económicos invejáveis.

“Não há mal que sempre dure, nem bem que se não acabe”, eis um outro antigo ditado português. E se não é exigível que eles vivam como ascetas, é desejável que possuam algum controlo sobre o seu futuro. Sem esse controlo perdem a liberdade, ficando dependentes dos humores das agências de crédito. A estas apenas interessa maximizar o lucro imediato, independentemente das consequências sociais futuras. A Trump interessa usar os seus “fait-divers” para desviar atenções. Era da responsabilidade do seu governo regular, de modo a proteger o modo de vida dos americanos. Mas esta regulação não interessa ao grupo de interesses que o colocou no poder. Sem regulação do estado, cabe a cada cidadão assegurar a sua própria regulação, com as consequências a que assistimos.

A economia não pode continuar a funcionar com níveis tão baixos de poupança. Pois que qualquer perturbação no sistema causará desequilíbrios nos orçamentos domésticos, que colocarão em risco o regular funcionamento dos próprios bancos financiadores. E muito deste dinheiro, gerido pelos bancos do outro lado do Atlântico, provém de fundos de pensões dos estados europeus, onde os cidadãos são obrigados a pagar (poupar) para a suas pensões em regime público.

Num mundo globalizado a interdependência afeta todos, e as decisões de consumo de americanos afetam também Portugal. Perante este cenário há duas possibilidades. Podemos festejar o Carnaval até terça-feira, e a partir daí fazer um consumo controlado. Em alternativa podemos continuar o Carnaval até onde pudermos, sendo certo que um dia chegará a quarta-feira de cinzas.