InícioOpiniãoAté ao dia em que já ninguém quererá saber

Até ao dia em que já ninguém quererá saber

Nuno Francisco

As dinâmicas que se desenvolvem no território permitem que se coloquem duas questões sobre o ambiente e que também estão associadas à persistente degradação demográfica da região. A primeira delas costuma visitar-nos no verão. O que não deixa de ser impressionante é que já  lidamos com ela como se fizesse parte de um cenário de inevitabilidade que transforma florestas em cinzas, o ar que respiramos em fumo, a tranquilidade em pânico, a relativa alegria em profunda dor.

Os aterradores incêndios florestais que destroem vezes sem conta o património natural de um país não são só aquilo que preenche os ecrãs durante o verão, num triste retrato de um Interior à mercê das chamas que galgam, sem travão, as serranias. Aquilo que arde, aquilo que nos rouba o pouco que temos, é também a consequência de um território tomado pela ausência e pelo desinteresse.Monoculturas florestais de rápido crescimento, mato e abandono a perder de vista.

Saímos porque tivemos que sair, deixando o acaso tomar conta do que ficou nas terras que agora se tornaram longínquas para cada vez mais. Pelo meio, alguns focos de resistência, aldeias que embrenhadas nestas terras de quase ninguém são evacuadas para dar passagem às chamas que todos os anos nos lembram que cada vez estamos mais impotentes, apesar do esforço e sacrifício de tantos que lutam contra um monstro feito de fogo.

Aquilo que arde, tantas vezes por motivações criminosas que pouco devem às “razões fúteis”,  arde também porque o território está entregue a si próprio,  sem força, sem  ânimo, sem capacidade de se impor, nem de se pensar.  Resta-nos, pois, a coragem de quem se atravessa à frente das chamas para as combater.  O formidável de tudo isto é que quando se fala exaustivamente deste tal Interior, o grande trunfo que se coloca em cima da mesa são as suas qualidades ambientais como potenciadoras da criação de atratividade e riqueza.

Pois bem, que se metam num carro e percorram aquilo que nos foi legado por um verão de incêndios. Veja-se, por exemplo, os severos danos materiais e paisagísticos em muitas aldeias que integram a Rede das Aldeias doXisto. Ou veja-se como ficou a Serra da Gardunha ou a Serra da Estrela. Vender o quê? Sugerir o quê? E depois da regeneração que levará tantos anos, começamos, novamente, a contar o tempo até que a tragédia volte a por tudo na estaca zero?

E depois, também podemos olhar para outro património natural da região: O rio Tejo. Vender o quê? Aquela triste imagem da poluição que tem inundado as televisões e as páginas dos jornais? O património ambiental da região é um dos  últimos pilares de esperança  onde nos podemos amparar. E as imagens que vamos vendo ao longo dos últimos meses são as da predação e destruição dos recursos que temos não só para nosso usufruto, mas, também, para o do resto do país. Enquanto a terra se queima e a água se polui, resta-nos perguntar o que é que ainda sobrará para nos agarrarmos. E mesmo que tudo se resolva momentaneamente, que garantias temos que o futuro não nos volte a visitar com a receita de sempre, até ao dia em que tudo se torna irresolúvel e, pior,  irrelevante. Porque chegará o dia em que desistiremos, chegará o dia em que já ninguém quererá saber.