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As sementinhas do Teatro das Beiras

Manuel da Silva Ramos

É sempre espantoso ver crianças atentas ou emocionadas numa sala de teatro, e então, quando a peça as atormenta com uns trovões súbitos, elas explodem naturalmente. E isto é mais um escape de contentamento que propriamente uma perturbação de espectáculo. Foi o que aconteceu quando fui ver a 98ª produção do Teatro das Beiras “ Um Mundo Mágico…”, a partir do texto “ A Vida Mágica da Sementinha “ de Alves Redol.

Eram perto de oitenta alunos da Escola do Rodrigo, da Covilhã, e pela reacção, a vinda deles ao teatro foi frutífera. No total foram perto de 840 alunos de todo o concelho da Covilhã que viram esta peça que é uma fábula surpreendente sobre a Natureza e, principalmente, sobre o ciclo do pão. A totalidade destas sementinhas veio das escolas do Peso, Tortosendo, Vales do Rio, S. Jorge da Beira, Paul, São Domingos, Penedos Altos, Unhais da Serra, Cortes do Meio, Canhoso, Montes Hermínios, Vila do Carvalho, Dominguiso, APPACDM do Fundão, Vale Formoso, Orjais, Peraboa e Conservatório da Covilhã.

É impressionante o trabalho que ultimamente o Teatro das Beiras tem estado a fazer em direcção ao público infanto-juvenil. Ao semear assim, esta companhia, com um palmarés notável, merece uma digna recompensa e uma compensação meritória. O serviço público que ela está a produzir na Beira Interior há muitos anos, merece pois a continuidade dos apoios estatais. Porém, actualmente, é o caos que se vive no Ministério da Cultura, com um ministro cada vez mais lento e mais alheado dos problemas reais dos agentes culturais. E, não é por acaso, que vai ser chamado ao Parlamento no dia 14 de Março, por causa dos atrasos dos apoios.

O sector teatral vive pois dias difíceis. O Teatro das Beiras sofre e com esta peça de Alves Redol já foi um risco que tomou. Se não houver apoios, os prejuízos inerentes à produção deste espectáculo serão visíveis. E, se em 31 de Março, os resultados dos apoios não saírem, é impossível continuar a fazer-se teatro na Travessa da Trapa. É o que nos diz Fernando Sena, o timoneiro corajoso desta nau cheia de sucessos. Na verdade, tudo é absurdo nesta lentidão que forja expectativas falsas e comportamentos suicidários em muitas estruturas artísticas.

No caso do Teatro das Beiras, que se foi restringindo aos poucos e poucos, a asfixia começa a ser notória mas mesmo assim resiste. Mas até quando? Ao apresentar em 2017, no DGArtes, uma candidatura para quatro espectáculos anuais, como será possível fazê-los se os apoios chegam tardios ? É ilógico. É o que pensam os resistentes do Teatro das Beiras, uma estrutura teatral fundamental na Beira Interior. No entanto, temos que lembrar, que os apoios às artes é uma obrigação assumida pelo Estado no cumprimento de um dever constitucional. Entremos agora no texto de Alves Redol, um dos nossos grandes escritores neo-realistas, que escreveu com “ Barranco dos Cegos” o seu grande romance, que publicou mais quatro livros voltados para a literatura infantil e que  foi um romancista engajado de crítica social, um humanista dos direitos do homem e da criança.

Era uma vez uma semente de trigo, chamada Sementinha, que vivia numa arca com outros bagos. Um rouxinol, apaixonado por ela, roubou-a de um tabuleiro e levou-a para o seu ninho. Depois, a sementinha foi roubada por um pardal mas este cheio de medo deixou-a cair  no tabuleiro. Mais tarde é plantada e feita prisioneira da Terra-Feiticeira e sofrerá vários ensaios e experiências. Nasceram-lhe depois  bagos de trigo e a Sementinha finalmente transformar-se-á em pão para dar esperança a todos os pobres. Sílvia Morais é uma Sementinha maravilhosamente ingénua e Tiago Moreira, camaleónico, em vários papéis, excela em Chapim Azul e na concepção musical que é soberba. Margarida Calaveiras, também múltipla, revela-se uma actriz com garra, voluntariosa e exuberante.

Quanto à encenação de Isabel Bilou, ela é simplesmente eficaz, misturando por vezes o mundo das marionetas com o do teatro. Mas dá-nos um espectáculo com uma imensa força poética, a que não estamos habituados numa peça infanto-juvenil. Em suma: eis uma peça de teatro que vai continuar o seu caminho didáctico e educativo, cheia de delirante lirismo e que será ainda mais aplaudida, temos a certeza, por pequenas mãos sem anéis. O Teatro das Beiras, ao apresentar-se neste estado mágico, merece viver, para júbilo e prazer de todos nós.