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As perguntas que devemos repetir

Nuno Francisco

O tempo é reconhecidamente um precioso conselheiro nem que seja  porque nos permite relativizar os factos  e colocá-los arrumados num contexto menos epidérmico, presente e vívido.  Recordamos nesta edição do Jornal do Fundão a passagem de quase duas décadas sobre o referendo da regionalização.

Não o fazemos por acaso. Fazemo-lo porque passados quase 20 anos sobre este processo, continuamos, ainda,  em busca de um compromisso regional, de uma escala que nos permita  adquirir alguma robustez para enfrentarmos os problemas que estão a comprometer irremediavelmente o futuro do território.

Uma robustez que sempre esteve longe de ser minimamente  alcançada, envolvidos nas inglórias lutas do cada um por si ou enredados em criações mais ou menos rebuscadas, como as comunidades intermunicipais, que pouco adiantaram para a consciência de uma coesão regional da Beira Interior.

A passagem destas quase duas décadas sobre  o referendo da  regionalização dá-nos a tal distância de segurança que nos permite fazer uma pergunta: Estamos melhor? “Mas, estamos melhor comparativamente a quê?”, poderão, com toda a justiça, questionar. É verdade que não sabemos e, provavelmente, tão cedo não saberemos, se um processo de regionalização como o que foi proposto aos portugueses a 8 de novembro de 1998 traria algo de realmente decisivo.

Não sabemos, honestamente, com o mínimo de fiabilidade, onde estaríamos hoje se a região da Beira Interior fosse uma realidade instituída, com uma relativa autonomia financeira e deliberativa para olhar por si e pelo futuro. Mas sabemos outra coisa e, desta temos uma profunda certeza, porque sabemos precisamente o ponto onde estamos e o caminho que percorremos desde 1998.

Podemos legitimamente  perguntar o que se passou entre 1998 e  2017, o que se passou após o chumbo da regionalização e hoje, os passos que demos  por entre este remanso continuar de quase tudo na mesma, nesta  candura dos dias como se nada se passasse, como se nada fosse premente, como se nada fosse ameaçador.

Por entre os naturais ganhos que podemos assinalar, nomeadamente ao nível de infraestruturas com a conclusão do Regadio da Cova da Beira, a construção das A23 e A25 (entretanto portajadas), o crescimento da UBI, e outros assinaláveis casos de resiliência, temos o direito de perguntar se estancámos o ritmo da quebra demográfica; se estamos mais capacitados para captar investimento; se o dinamismo económico e a capacidade de atração  da Beira Interior aumentou;  se a floresta está mais ordenada, cuidada, vigiada e, sobretudo, se arde menos.

Também podemos perguntar  quantas escolas, tribunais, agências bancárias, postos de correio, etc., fecharam desde 1998; quantos serviços públicos se subtraíram em 19 anos ao território da Beira Interior com a justificação de que “não há pessoas”. E com a mesma legitimidade, exigimos que, por uma vez, as respostas sejam dadas e que não se encontre sempre a justificação na lonjura, na lamúria  e nos fatores externos à região. O problema é o mesmo de sempre: fechou-se um dossier para continuar tudo na mesma. Só que alguém, entretanto, se esqueceu de uma coisa: Continuar na mesma é, por vezes, acelerar o passo rumo ao abismo.