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A arte que nos questiona

Manuel da Silva Ramos

Quem por estes dias for à Calçada do Biribau, na Covilhã, e entrar no Museu dos Lanifícios – Núcleo da Real Fábrica Veiga, ficará surpreendido depois de descer as escadas que conduzem ao piso inferior. Aí, ao lado de muita maquinaria têxtil, e na área arqueológica do Museu, um conjunto de vinte e nove draperies domina insolitamente todo o espaço. É um verdadeiro choque estético. Não temos medo de afirmar isso pois esta intervenção estética do escultor João Castro Silva é de uma surpreendente beleza. E que nos remete imediatamente para a saga inumana da exploração dos operários dos lanifícios. É que as draperies, na sua aparente e uniforme simplicidade, lembram dependuradas as camisolas interiores dos trabalhadores suados, com as suas rugas profundas, os seus vincos discordantes fruto de esforços prolongados.

Quando pensamos que as ruínas em tijolo por baixo das draperies são o resto de uma estrutura do último quartel do século XIX onde assentavam caldeiras de vapor da fábrica completa denominada Real Fábrica Veiga, pertencente a Marcelino José Ventura, e onde trabalhavam 504 operários, mais tem real significado aqui esta exposição incrível de Castro Silva. O artista, ao fomentar a ilusão, cria a sua própria arte que tem por obrigação de nos espantar. É o caso destas draperies que não são feitas em tecido, nem em pano, mas em criptoméria, uma madeira suave muito fácil de trabalhar que só existe na Madeira e nos Açores e que é uma árvore japonesa.

O escultor, depois de executar centenas de desenhos, fez as placas de madeiras uma a uma, talhou as volumetrias e depois ordenou no espaço adequado a sua destreza. Há muito que não víamos no mundo tão desconcertante e descontrolado das instalações artísticas uma poesia tão visceral. Isto não é de admirar pois o escultor que é Castro Silva ( um dos mais talentosos e modestos de Portugal) já tem atrás de si uma obra coerente e magnífica. O seu palmarés foi construído tanto em Portugal como no estrangeiro e prova que estamos diante de um artista tanto onírico e criativo, como interventivo e teórico.

Num café de Lisboa mostrou-me as fotografias de quatro das suas mais emblemáticas criações e fiquei rendido à sua capacidade imaginativa e ao seu labor manual. A primeira aconteceu em Montauban, cidade do sul da França, que eu conheço por acaso muito bem por lá ter vivido a família da minha ex-mulher. Castro Silva foi convidado pela associação Espace Bourdelle e criou in loco o seu “ Ecce Homo”, de dois metros e meio de altura, a partir de um cipreste que talhou com motosserra e enxó. O resultado é um homem nu, tosco e poderoso, que parece dominar o mundo. Colocada por baixo do Pont Vieux, ao lado do Museu Ingres, a escultura de Castro Silva teve imenso sucesso. A segunda criação foi uma exposição intitulada “ Percursos” e realizou-se numa sala de 35 m2 da Galeria Trema em Lisboa.

Nesta instalação, o chão estava coberto de serradura e as espigas  metálicas do campo de trigo tinham figurinhas em alumínio com o nome de “ whimsical winged body”. A serradura anulava o som e o escultor diz-me que os visitantes perdiam as referências espaciais ao passearem-se nesse inusitado e etéreo espaço por entre as figurinhas que representavam as suas duas filhas, as gémeas Leonor e Beatriz, acabadinhas de nascer. A terceira ocorreu também em França e desta vez no norte, em Montjean-sur-Loire. Castro Silva talhou seis cabeças de homem em troncos de faia e colocou-os em círculo num diálogo silencioso. Hêtre é a palavra francesa de faia, mas être é o ser. Ao proporcionar esta dimensão filosófica, o escultor ficou ainda mais contente quando conseguiu colocar as suas seis esculturas ao lado do rio que passa nessa localidade. E por fim, a quarta criação e que é a mais delirante do percurso de Castro Silva.

Em Lisboa, em 1996, ainda na Galeria Trema, Castro Silva partiu de três quadros de Bosch e fez “ Tentações”. Quarenta esculturas de técnicas mistas, resina, madeira, metal, buzinas de automóveis, tampas de botijas de gaz, materiais recuperados, etc. O conjunto é mágico e os visitantes vogavam por três salas entre animais bizarros e figuras estranhas, o que levou o conhecido crítico José Luís Porfírio a dizer disto tudo que era « um sinal de inquietação assumida e vivida e vontade de transformar os velhos materiais da escultura numa interrogação que tem tanto de contemporâneo como de um reviver de medos ancestrais.»

O trajecto de Castro Silva não é muito diferente dos escultores que nós amamos:  Christo que embalou o Pont-Neuf em Paris e depois o Reichstag em Berlim; César que fez o seu “ Polegar” com seis metros de altura  e que foi colocado há poucos meses diante do Centro  Georges Pompidou; David Cerny, o checo de Praga, que no jardim do Museu Kafka, pôs dois homens a urinar, face a face.  Este criador, que é professor de escultura na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, faz questão de expor longe da capital, lá onde a cultura é necessária. Depois do Fundão e Vila-Franca das Naves , é  agora altura de mostrar uma das suas obras na que foi a Manchester portuguesa, e mais particularmente, no Caminho do Biribau, onde tantos operários passavam de lancheira na mão e mulheres com cortes à cabeça. Parabéns pois ao Museu dos Lanifícios da Covilhã que dá a conhecer um grande artista.