InícioOpiniãoAníbal Sequeira: um fotógrafo de ouro e prata

Aníbal Sequeira: um fotógrafo de ouro e prata

Manuel da Silva Ramos

Não é todos os dias que descobrimos em Portugal um fotógrafo excepcional e quando esse artista é amador então o nosso contentamento é duplo. Foi o que aconteceu com Aníbal Sequeira, um beirão da Lardosa, que tem actualmente uma mostra fotográfica na Moagem, no Fundão, e até ao dia 13 de Fevereiro. É uma exposição imperdível pois ela reúne 91 fotografias todas de excelente qualidade.

Num país pouco avesso a elogios entre pares ou a reconhecimentos entre gente da mesma especialidade, o silêncio que envolve o trabalho de Aníbal Sequeira é gritante e é a prova cabal de que tudo neste país de cunhas e inveja, passa por compadrios, amiguismos e troca de favores. Se fosse em França ( país onde há galerias que expõem só fotografia e onde existe o hábito de compra de originais e reproduções), Aníbal Sequeira, pelo seu périplo de vida e pelo seu trajecto artístico, seria colocado nos pináculos e estaria no lugar conceituado que merece.

Outsider marginalizado em Portugal, o nosso fotógrafo não está amargo. Ganhou uma sabedoria oriental, pois o facto de ser mais reconhecido no estrangeiro deu-lhe a convicção de que o caminho que percorreu não foi em vão. Vivendo em Lisboa desde os 14 anos, Aníbal Sequeira foi ostracizado ao longo dos anos pelos fotógrafos profissionais, e, claro, pela crítica dos jornais.

É tempo de se fazer justiça a um artista genuíno que clama a sua autenticidade de amador e a sua totalidade de autor. Diga-se aqui que é ele que executa tudo no seu laboratório. «Os grandes fotógrafos nunca imprimiram uma fotografia. Nunca tiveram as mãos amarelas. Sabe, a fotografia também é cloreto de prata» diz-nos ele num café das Amoreiras, em Lisboa. Sem referências ou mestres, o fotógrafo afirma ainda que os seus temas favoritos são o homem e o seu ambiente, o retrato e o nu. E termina: « As minhas fotografias pretendem representar emoções e depois fazê-las em laboratório é a melhor das alegrias.»

É por isso que esta retrospectiva no Fundão é importante pois ela é um resumo de uma vida artística solitária, plena e consciente do seu valor. São fotografias belíssimas,  num formato grande de 40X40, onde reina a Beira em todo o seu esplendor típico: mulheres idosas de chapéu preto na cabeça que lançam ao ar as vagens do feijão frade, misteriosos sulcos de terra lavrada, um homem decidido que maneja uma junta de bois, velhinhas de xaile apanhando o sol invernal, dois pastores seguindo um rebanho poeirento, três mulheres com paneadas à cabeça etc.

Mas o retratista que é Aníbal Sequeira deslumbra-nos também  com a imagem extraordinária de uma mulher de negro, sofrida e sem dentes ou com o aparato fantástico de várias gerações beirãs com a mãe, a filha e quatro netos em pose prolífera, cena tão poderosa quanto as fotografias de Walker Evans, o grande fotógrafo americano que documentou os efeitos da Grande Depressão. E que dizer do fantástico nu de mulher deitada com um joelho no ar? Tudo é humano e universal em Aníbal Sequeira, quer fotografando crianças, fazendo fotomontagens ou atingindo o sublime com “ O Ganhão”, a sua fotografia mais premiada, ou com “ A Poeira do Caminho” que é o regresso de um jovem pastor à poeira efervescente da vida.

Este artista que calcorreou a Beira de lés a lés, teve  fotografias suas exibidas em cinco cidades japonesas, fez exposições individuais na Alemanha, Brasil, Checoslováquia, Ucrânia, Espanha, Áustria, Bélgica, e participou numa multitude de exposições colectivas, a maior parte no estrangeiro. Ganhou inúmeros prémios dentro do país mas foi lá fora que foi mais recompensado e segundo o  “ Who´s Who” da PSA ( Photographic Society of America), foi o fotógrafo português mais classificado na década de 70. E é o fotógrafo português, entre amadores e profissionais, com maior número de admissões, maior número de prémios e mais distinções obtidas, na modalidade da Fotografia Artística a Preto e Branco.

Além disso, é membro de honra de vários organismos estrangeiros com relevo no Mundo da Fotografia. Que percurso artístico o deste homem até hoje ! E o daquele miúdo que com 15 anos resolveu ir de Lisboa à  terra natal, fotografar a sua aldeia e as suas gentes com o seu caixote Kodak! Esse momento único está gravado numa fotografia tirada por um colega e pode ver-se aí um rapaz sorridente, com a máquina a tiracolo, subindo para um comboio, já com o bichinho da arte nos olhos. Mas também que viagem de vida, a deste esforçado rebento do povo que singrou na existência com vontade férrea!  Filho de um operário da CP, o jovem Aníbal fez a quarta classe na Lardosa e aos 14 anos rumou para Lisboa com a intenção de estudar.

Assim começou uma vida de estudante trabalhador que se prolongou por muitos anos. Na capital, tira o Curso Geral de Comércio e ingressa na Companhia Nacional de Navegação onde labuta nos escritórios. Ao mesmo tempo que trabalha, tira o curso de Contabilidade e mais tarde licencia-se em Economia. Com o curso do Instituto Superior de Economia no bolso, ingressa na EPAL onde ficou até à sua reforma em 1998. Não descurando o poder da cultura no associativismo, entre 1960 a 1973, como membro do Grupo Desportivo e Cultural da CNN, organizou a Bienal Internacional de Lisboa, as maiores exposições fotográficas realizadas em Portugal desde sempre, com dezenas de artistas estrangeiros.

Hoje com 80 anos, Aníbal Sequeira confessa-nos que diante de um pormenor da vida não desdenha de utilizar a sua Cannon digital ou o smartphone, ele que tem belas máquinas em casa! E entre elas, a sua preferida: a Rolleyflex SL 6X6, que pesa dois quilos. Foram notáveis as fotografias a preto e branco que constituíram o único álbum que Aníbal Sequeira publicou, em 2004, na editora Miosótis, com prefácio de Fernando Paulouro Neves, e intitulado “ Escrita de Prata”. Era bom que o autor recidivasse. Louve-se a Câmara Municipal do Fundão que acolheu, num lugar soberbo, a sensibilidade de um grande criador.