InícioOpiniãoAlgo de novo a sul

Algo de novo a sul

Nuno Francisco

No caminhar pelos dias, vale sempre a pena parar e olhar em volta para estes terrenos férteis da Cova da Beira. Olhar para esta peculiar geografia aos pés de uma  Gardunha mais uma vez  destruída pelos incêndios e por esta Estrela, agora de tonalidade branca, mas também ela incapaz de esconder as obscenas cicatrizes do fogo. Neste imenso vale, cujas características já nos eram ensinadas no então ensino primário, com o assinalar do fantástico “microclima”da Cova da Beira que garantia condições únicas para a agricultura. Esta mesma Cova da Beira é a mesma sub-região que apresenta ainda uma das maiores densidades populacionais de todo o Interior do país, apesar das evidentes perdas contínuas de população neste território que engloba, grosso modo, os concelhos da Covilhã, Fundão e Belmonte.

Teremos nesse torrão de Interior cerca de 90 mil pessoas e muitas delas ligadas precisamente  àquilo que as terras férteis da Cova da Beira oferecem. O sucesso da cereja do Fundão, para além de uma aposta feliz ao nível do marketing está alicerçado na qualidade inquestionável de um produto agrícola. E esta, sim, é  a principal evidência de uma sábia apropriação das vantagens competitivas que um território pode oferecer no setor agrícola. O facto é que desta  Cova da Beira sai a maior produção nacional de cereja, movimentando anualmente milhões de euros. Mas os cerejais estão longe de ser o único exemplo de um inteligente uso das potencialidades agrícolas da Cova da Beira. De resto, com o fim das quase eternas obras doRegadio da Cova da Beira, outras oportunidades se criaram, apesar da longa e incompreensível agonia que foi a sua construção e se terem perdido, nessas décadas, muito mais oportunidades do que as que se criaram.

Têm sido recorrentes nos últimos meses as notícias de investimentos neste setor um pouco por todo este território e o Regadio tem sido um fator importante para a tomada de decisões: a água ainda flui e a um preço mais competitivo em relação a outros regadios.  Alia-se a qualidade dos solos, o clima propício para muitas culturas e o resultado vai-se medindo pelas áreas que têm aproveitamento agrícola. Mas a realidade está longe de ser edílica, nomeadamente a sul da Gardunha, onde a água do regadio não chega e onde os alarmes já soaram ainda  em pleno inverno. Apesar da chuva desta semana ter vindo a atenuar o problema, as reservas de água dos cerca de 200 produtores agrícolas que tratam de uma área frutícola (essencialmente cereja e pêssego) com cerca de cinco mil hectares, estão em estado preocupante e longe de garantir que os próximos meses sejam descansados.

A extensão do Regadio para o sul da Gardunha foi uma das relevantes novidades da semana que passou. O Governo incluiu esse desígnio no Plano Nacional de Regadios, juntamente com outras estruturas que visam aumentar significativamente a área agrícola irrigada a nível nacional. Os agricultores que hoje se deparam com graves problemas  esperam, apenas, que a sul tudo seja novo e que não tenham que aguardar cerca de 30 anos pela conclusão de um projeto de regadio, tal como o exemplo que sobejamente conhecemos. É que o tempo não flui apenas. Ele também nos foge e com ele leva  muitas oportunidades.