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A nossa vergonha

Nuno Francisco

Talvez não se encontrem nos últimos anos imagens tão cruas, e simultaneamente, tão reveladoras sobre a nossa condição de alegres caminhantes rumo ao abismo. Quem as viu com a devida atenção e com a merecida perplexidade não pôde deixar de ficar profundamente comovido e em austero silêncio perante a realidade captada por Paul Micklen, fotógrafo do grupo de conservação da natureza Sea Legacy.

Naqueles momentos que nos agonizam, um urso polar magríssimo, com os músculos atrofiados pela fome vagueia dolorosamente pela paisagem canadiana, na ilha de Baffin, em busca de algum alimento que o mantenha ligado à vida. Em declarações à National Geographic Paul Micklen admitiu que ele e o restante grupo choravam ao ver aqueles minutos de profunda agonia. O incómodo das imagens e daquilo que representam deveria ficar para sempre gravado na nossa memória, deveria assombrar-nos o tempo que fosse necessário até que tomássemos a consciência do que é realmente relevante e do que é ridiculamente acessório e que nos toma conta dos dias.

O que aquela sequência de imagens de um urso polar moribundo a escassos momentos da morte nos demonstra não é apenas a ameaça de extinção que paira sobre esta espécie, por causa das alterações climáticas em curso causadas pela ação humana e que alguns alienados – poucos, felizmente –  continuam pateticamente a negar. O que aquelas duras imagens nos dizem, para além da já de si grave ameaça de extinção de mais uma espécie,  é o absoluto estado de indigência a que deixámos chegar o planeta, onde nem cuidamos de nós nem  daqueles que deveríamos cuidar, fazendo algo que, à partida, parece ser de relativa simplicidade e bom senso: respeitar minimamente os habitats, não destruir massivamente e insistentemente a natureza para alimentar uma insana predação de todos os recursos finitos que o planeta ainda dá e que em breve deixará de dar.

Vive-se como se não houvesse amanhã, talvez porque esse amanhã – que ingenuamente achamos que está sempre longe demais – também nos começa a parecer demasiado assustador. Mas não, o amanhã está já aqui, no arrastado passo daquele urso num habitat destruído, na vã luta por  alimentos que já não existem, numa revoltante imagem da nossa incúria e total irresponsabilidade ambiental.

Se o “vive o momento” dá uma bela frase motivacional numa qualquer  rede social, quando se entra no domínio da realidade, da nossa sobrevivência comum e das outras espécies que habitam o planeta e pelas quais somos responsáveis, a coisa não está bem encaminhada.  A “coisa” não se resolve com frases feitas, banalidades avulso e indignações pífias.  Os acordos climáticos – para além de imporem restrições que se estendem demoradamente para tentar travar algo que já hoje os ameaça tornar obsoletos – são  demasiado brandos para com o aquecimento do planeta, com as consequências que já se fazem sentir.

E, claro, contam ainda com sucessivos obstáculos de quem só concebe associar desenvolvimento a mais poluição. É este hoje e agora que nos está a conduzir a um beco sem saída. Mas queremos mesmo viver o momento? Olhemos, então, para aquela imagem de Paul Micklen e sintamos uma profunda vergonha! Todos.