A espera

Nuno Francisco

Demorará demasiado tempo para termos perante nós a floresta que perdemos nos incêndios deste ano.E tudo demorará tempo demais para nos darmos ao luxo de voltarmos a perder tudo num ápice. Mas a memória, efémera como é, irá atenuar a dor e a sensação de perda à medida que o verde volta novamente a tomar conta dos tons de cinza que cobrem parte substancial dos territórios do Interior.

Como já o fez tantas vezes, a paciente renovação da natureza fará cair, lentamente, por terra renovadas esperanças que desta vez talvez aprendêssemos algo com tudo aquilo que se passou. Uma questão que foi bem visível, por exemplo, na Serra da Gardunha que ainda não tinha recuperado do grave incêndio de há 15 anos e já estava a ser novamente devastada por um trágico fogo.

Viver neste contínuo processo de destruição do nosso património natural não deveria ser uma inevitabilidade, mas olhando para aquilo que foi dito e o que foi feito na Serra da Gardunha temos que nos convencer que o acaso e a sorte cumpriram  o papel que deveria ter cabido ao planeamento e à estratégia. Hoje, a Gardunha, como tantas outras geografias, voltou a pagar pelas palavras e juras a mais e ação a menos.

Embora em Portugal, a esmagadora maioria da floresta pertença a privados, tal não implica que o Estado não tenha um papel fundamental na sua organização. Naturalmente que os proprietários querem rentabilizar o seu quinhão e as espécies de rápido crescimento são as mais tentadoras e as que garantem algum retorno financeiro num tempo aceitável, isto se, no entanto, não arderem no meio do processo, o que é uma alta probabilidade em Portugal. Os eucaliptos são apenas o retrato imediato desse processo. O Estado, se quer efetivamente disciplinar  a floresta, tem que garantir apoio contínuo às espécies  de menor combustibilidade e que levam décadas a trazer rendimento. Não se pode exigir aos privados que se plantem milhares de hectares de castanheiros, carvalhos ou de sobreiros, se nada lhes for garantido a não ser uma longa e incerta espera. E esses hectares têm uma função ecológica e de diminuição de riscos. E esses fatores decisivos têm  que ser amparados e reconhecidos.

A TSF noticiou esta semana que está a existir uma verdadeira corrida à plantação de eucaliptos e que a causa de tal “é a lei aprovada no Parlamento, em agosto, depois dos fogos de Pedrógão Grande, proibindo as novas plantações de eucaliptos em áreas onde estes não existiam”. Ainda segundo a TSF “as primeiras denúncias dessa corrida aconteceram pouco depois da publicação da lei com o governo a avançar com um decreto-lei transitório, enquanto a lei não entra em vigor em fevereiro, para evitar que sejam plantados eucaliptos em áreas ardidas anteriormente ocupadas por outras espécies. A medida foi na altura promulgada pelo Presidente da República com avisos que era preciso garantir a “sua efetiva aplicação”. O regime transitório foi publicado em dezembro, depois de alertas do próprio ministro da Agricultura que temia uma corrida aos eucaliptos, mas quem trabalha na floresta diz que a legislação serviu de pouco, alertando para a falta de fiscalização. E é assim que a memória nos voltará a trair dentro de alguns anos. E as lágrimas suceder-se-ão às lágrimas. Mais uma vez.