InícioCastelo BrancoMuseu vai preservar memória têxtil de Castelo Branco

Museu vai preservar memória têxtil de Castelo Branco

(c) Pedro Martins/Global Imagens

(c) Pedro Martins/Global Imagens

POR estes dias ouve-se um barulho fora do habitual na Avenida Infante Dom Henrique que atravessa a povoação de Cebolais de Cima, concelho de Castelo Branco. O som não é totalmente desconhecido dos habitantes e há quem se emocione quanto se aproxima da antiga Fábrica da Corga, onde um pequeno grupo de trabalhadores e ex-trabalhadores dos lanifícios está a recuperar uma série de maquinaria antiga e objetos que sustentou o setor na aldeia e na localidade vizinha de Retaxo. Poucos acreditavam ser possível transformar a antiga Fábrica da Corga (que abriu nos anos 50), onde era feita a fiação e tecelagem de lãs, num Museu Têxtil. Quando recentemente ecoou, em teste no museu, a buzina industrial que assinalava a entrada e saída dos trabalhadores, é que os habitantes confirmaram que está para breve a abertura de um espaço que fará justiça ao passado “heroico” da localidade.

Sabe-se que a Fábrica da Corga, onde era feita a fiação e tecelagem de lãs, cessou atividade nos anos 90. Em 2014 foi comprada pela Câmara para fazer dela um museu. Depois de efetuar a compra, foi contratada uma empresa especializada na recuperação dos equipamentos industriais para fazer da Corga mais do que um museu de lanifícios mas um “museu vivo” em laboração e onde se recupera toda a longa e rica história dos Cebolais de Cima. A indústria local tinha envergadura nacional, responsável por 14 por cento da lã do país. A aldeia, hoje com mil habitantes e apenas com uma empresa têxtil que emprega pouco mais de 20 trabalhadores, chegou a ter mais moradores e mais de oito dezenas de fábricas do setor têxtil.

José Joaquim Rodrigues, com 68 anos, trabalhou ali metade dos anos que leva de vida. Entrou na Corga, e dali não saiu até a fábrica fechar com três dezenas de operários, completando 32 anos de trabalho. Fala para a nossa reportagem enquanto observa e dá indicações sobre os trabalhos de reparação das máquinas fabris, algumas que existiam como recheio da Corga, outras adquiridas pela autarquia a outras empresas do setor também encerradas em Cebolais de Cima. O conjunto da maquinaria, alguma do século XIX, vai estar em laboração quando o Museu Têxtil abrir portas no final da primavera vai mostrar ao visitantes as várias fases do têxtil: cardação, fiação tecelagem. “Ali fazia-se a preparação da matéria, alguma vinha do estrangeiro. Punha-se em camadas para fazer a mescla. Depois a lá era batida….”.

José Rodrigues “fugiu” da vida da agricultura aos 15 anos graças à indústria dos lanifícios dos Cebolais. É um dos ex trabalhadores que está envolvido no projeto camarário de transformar a antiga Fábrica da Corga em Museu Têxtil, diferente do que é habitual: não só as maquinas originais estarão restauradas como a funcionar. “Teremos aqui um museu vivo”, destaca Marta Roque, responsável pelo projeto de museologia.

José Joaquim Rodrigues recorda a Fábrica da Corga como se tivesse sido a sua segunda casa. Conhece toda a sua história, cada pormenor da maquinaria pesada que ali existe porque até aos anos 90, quando a fábrica fechou, quando alguma se avariava, era um dos que ficava à noite a arranjar, para que de manhã o turno começasse sem problemas.

Arranjar trabalho numa fábrica, naqueles anos 60, era “um luxo” redobrado quando essa oportunidade se abria longe das grandes ou médias cidades (Castelo Branco ou Covilhã, por exemplo). Os lanifícios dos Cebolais de Cima davam emprego a gente que vinha das terras vizinhas. “Quem vinha para aqui recebia pelo que fazia. No campo não se passa assim, quando chove, por exemplo não se recebe nada. E pelo menos aqui trabalhava-se ao enxuto”, frisa. A guerra colonial chamou José Joaquim para a Guiné nos anos 70, mas a partir de lá acompanhava a realidade da aldeia natal. “Em aerograma (carta que se envia por correio aéreo, sem necessidade de sobrescrito) tentava saber se tudo corria bem por cá, porque tinha na ideia de regressar à fábrica” e assim aconteceu, para ganhar 900 escudos por mês.

A abertura do Museu Têxtil está a ser aguardada por todos. É que não há casa onde não habite um ex-trabalhador ou alguém que não tenha um familiar reformado do setor. “Os meus filhos, ainda pequeninos, vinham para aqui até ao infantário abrir”, José Joaquim emociona-se. Francisco Saraiva, operário na única fabril têxtil atualmente a laborar nos Cebolais, está também envolvido na reparação de peças, “uma autêntica dor de cabeça”, confessa. “Muitas delas já não existem. São máquinas do século XIX e XX, fabricadas nas antigas industrias metalomecânicas de Castelo Branco e da Covilhã. Procurámos uma lançadeira para aquela máquina (aponta para um tear mecânico) e só foi possível graças a um artesão que ainda fazia destas coisas na Suíça”, conta. Muitas horas a trabalhar pelos dois pisos do futuro museu, outras tantas fora dele a pensar como resolver cada avaria detetada…mas o certo é que as máquinas estão a funcionar.

Marta Roque, arquiteta, é uma das responsáveis pelo projeto de museologia do Museu Têxtil e pela inventariação do contributo de Cebolais de Cima na indústria têxtil nacional e impactos económicos locais e regionais. “Cebolais tinha um nível de vida superior à média nacional. As famílias empregadas nas fábricas tinham possibilidades de pagar estudos superiores aos filhos, quando isso não era muito comum sobretudo em lugares tão pequenos como este”, conta. Nos anos 60, a indústria empregava mais de mil trabalhadores. Vivia-se na aldeia como em Paris: as famílias tinham algum poder económico e possuíam eletrodomésticos e viatura. “O museu fará a salvaguarda de toda esta informação e também a consciencialização do valor deste património porque tem um enorme valor social e económico que mexeu com a vida de muita gente”, diz Marta Roque.

O jovem presidente da Junta de Freguesia de Cebolais de Cima/Retaxo, Miguel Vaz considera que o projeto museológico “fará justiça histórica com o auge do que já foi esta terra. As pessoas já ouviram estas máquinas arranjadas a trabalhar e foi uma grande emoção. Um tear esteve aqui a funcionar e até eu fiquei arrepiado, porque são sons que se ouviam no exterior das fábricas”. Surgiu a ideia de restaurar até uma sirene fabril. “Foi possível porque ainda existia uma numa das antigas fábricas. Já se pôs a tocar, nesse dia foi fantástico”, diz Miguel Vaz.

JOVEM AGARROU-SE AOS TEARES

“LANÇADEIRA” é o nome dado à peça dos teares e das máquinas de costura, que contém um pequeno cilindro (carretilha) onde se enrola o fio. A denominação foi adotada por três jovens de Cebolais de Cima que se juntaram para salvaguardar os saberes da tecelagem e dinamizar atividades junto da população envelhecida com os mais novos. Ricardo Martinho, Marta Roque e Ana Baltazar lançam a semente para que o “saber-fazer” permaneça e que possa ser adotado no produto artesanal com uma linguagem contemporânea com capacidade de afirmação no mercado e sobretudo a valorização da atividade artesanal como uma profissão da atualidade. “Existe em Cebolais de Cima e Retaxo um saber-fazer que existiu, estava a ser perdido porque não estava a ser transmitido”, explica Marta Roque. O projeto já proporcionou a meia dúzia de atividades junto da comunidade educativa, primeiro com teares em cartão e depois com teares em madeira.

O projeto “Lançadeira”, que conquistou vários prémios locais e nacionais de empreendedorismo e inovação social, passará pelo Museu Têxtil com a realização de workshop sobre o “segredo do cruzamento de fios”.

Este ano repetirá o peddy paper “Rota dos Lanifícios” pelo património industrial da localidade.

A prova de que a tapeçaria não é uma atividade “morta” é mostrada pelas mãos de Ricardo Martinho, 32 anos, licenciado em Design de Interiores e Equipamento, que há três anos estava desempregado e decidiu dar proveito a um tear guardado na sede da Associação Cultural e Social Rancho Folclórico do Retaxo. “Procurei ajuda junto do ti João e Ana Romãozinho para aprender a manusear a estrutura de madeira e para a preparação dos fios. Hoje dá aulas na Escola Superior de Artes, trabalha numa loja de roupa mas não abandonou os teares – sim, porque adquiriu um segundo. “É um gosto que se ganha. Há público para esta atividade, tenho tido sempre encomendas”, confessa. O produto do trabalho segue para clientes particulares e lojas em Lisboa. “A maior parte das pessoas não tem noção do tempo que se dedica a uma peça, um erro reflete-se no trabalho todo”, destaca.

Célia Domingues