InícioSociedadeMassimo Moratti vem de avião para caçar em Idanha-a-Nova

Massimo Moratti vem de avião para caçar em Idanha-a-Nova

Ex-presidente do Inter de Milão é uma das figuras públicas que escolhem o concelho raiano para caçar, mas há outras.

NAS PROXIMIDADES de Penha Garcia, em Idanha-a-Nova, estende-se uma paisagem de harmonia natural que faz do silencioso Vale Feitoso um dos territórios de caça mais procurados no país. São 7.500 hectares de área, dos quais 1.200 são reserva de caça turística, destino dos mais ambiciosos caçadores no período reservado à caça grossa (veados, muflão, gamos, javalis) que vai de novembro a fevereiro.

O Vale Feitoso é um “diamante” da atividade cinegética que está nas mãos da Companhia Agrícola de Penha Garcia e gerido pela Monfortur. A empresa traz este ano a Idanha-a-Nova cerca de 500 pessoas, entre caçadores e famílias que ficam alojados em Monfortinho ou em unidades de alojamento rural na zona.

O empresário Sousa Cintra ou o escritor Miguel Sousa Tavares são clientes assíduos do Vale Feitoso, mas não são os únicos famosos a virem às terras de Idanha. As zonas de caça de Idanha-a-Nova são procuradas por banqueiros, empresários, médicos e muitos estrangeiros com elevado poder de compra. O ex-presidente do Inter de Milão, Massimo Moratti, é outra das presenças assíduas por aquelas bandas. É aliás um dos clientes que se desloca para a zona transfronteiriça numa aeronave que fica estacionada do outro lado da fronteira.

Boa parte dos caçadores estrangeiros deslocam-se para Idanha-a-Nova neste tipo de transporte. “Sai mais barato a um grupo de caçadores alugar uma aeronave do que vir de avião para Lisboa”, diz Joaquim Moreira, responsável pela Sercaza, que trouxe há duas semanas um grupo de 17 italianos para caçar em Monfortinho.

A organizar eventos de caça desde 2012, a Sercaza tem garantida a presença de 300 a 400 pessoas em Idanha-a-Nova até ao final da época. “Nós tratamos de tudo, desde viaturas, hotéis, alimentação, programas para as famílias, tradutores”, adianta Joaquim Moreira.

A boa organização dos eventos de caça, a orografia do terreno, a riqueza da fauna puxam o lustro à atividade cinegética raiana (uma fama secular). Idanha-a-Nova é aliás o município com maior área de caça ordenada no país – 120 mil hectares – e com cada vez mais procura por caçadores que veem de todo o lado.

A caça gera receita em toda a sua fileira, mas este estudo está ainda por se fazer. Para se ter uma ideia, comecemos com as reservas de caça, terrenos que são alugados a gestores da atividade cinegética. Os proprietários recebem rendas que podem chegar aos 12 mil euros por ano. Por outro lado, o caçador fica pelo menos uma noite em Idanha-a-Nova, sobretudo na zona de Monfortinho, Segura, Rosmaninhal ou Salvaterra do Extremo.

Com ele estão, na maioria das vezes, as famílias que optam por visitar o território. A atividade cinegética é assim um atrativo que alivia cada vez mais a asfixia das unidades hoteleiras desta zona. O Hotel Fonte Santa revela que os três meses de caça é a altura “com mais atividade” na unidade. Só a Monfortur fatura para a hotelaria local cerca de 70 mil euros por ano.

“As pessoas não fazem ideia dos milhares de euros que a caça movimenta em Idanha-a-Nova. A cinegética deveria ser encarada como um subproduto da atividade florestal e agrícola. Muitos destes caçadores, que são assíduos em Idanha, vieram pela primeira vez sozinhos ou em grupo só para experimentar. Viram a organização, a forma como são sorteadas as portas (onde está o caçador na montaria), todo o acompanhamento que se faz… ou seja, o caçador sente-se seguro”, afirma Ricardo Estrela, gestor da Monfortur.

A fama da “boa” caça grossa em Idanha-a-Nova está a alastrar pela Europa. França, Bélgica, Itália são os países que se destacam na procura deste espaço para caçar. Em médias estes visitantes caçadores deixam no concelho dez mil euros por dia, incluindo alojamento e participação nos programas de caça. As montarias aos javalis, a caça ao veado, ao muflão e ao gamo, são os programas mais procurados com preços que variam entre os 100 euros aos 12 mil euros por dia. E não se pense que os programas mais caros são os menos procurados.

A Salvatur, Lda – Instinto Caça está no terreno desde 2009 a gerir uma reserva de 1.200 hectares de caça turística. Esta empresa garante cerca de mil pessoas em Idanha-a-Nova até fevereiro. Aluga propriedades para a realização essencialmente de montarias aos javalis e veados. Carlos Rascão, um dos seus responsáveis, não tem dúvidas em afirmar “que a procura por programas de caça em Idanha-a-Nova está a crescer”. A maioria dos clientes da Salvatur, Lda – Instinto Caça, são espanhóis, atraídos também, diz, pela gastronomia local. “O concelho consegue oferecer uma organização profissional e o caçador sente-se bem, porque também é isso que exige”. Por outro lado, as empresas apresentam as suas exigências, desde o respeito pela natureza à proibição de matar fêmeas como forma de garantir a continuidade da espécie.

A Monfortur, a Instinto Caça ou a Sercaza são vistas como as três empresas mais emblemáticas na organização de eventos de caça no concelho de Idanha-a-Nova. Contudo, existem ainda no território dezenas de associações de caça associativa que também aos fins de semana organizam programas de caça que atraem dezenas de pessoas de todo o país.

Célia Domingues