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Trabalhava num posto de combustíveis e agora é programador

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João Claro tem 26 anos e há menos de um ano trabalhava numa bomba de combustível em Lisboa. Hoje, é programador numa empresa do Fundão, onde integrou a “Academia de Código”, projeto que lhe garantiu um novo emprego e uma nova vida. Não é caso único.

À história do João, junta-se a da Ana Tomás, a da Joana Contente ou a do Pavel Racu. Com áreas de formação muito distintas, integram o grupo das primeiras pessoas que participaram na “Academia de Código”, o programa de formação intensiva que começou por ser dinamizado pela Câmara do Fundão e por uma startup e que pretende reconverter e qualificar pessoas para a área da programação e código para as novas tecnologias.

Ao pensar nos últimos 10 a 11 meses, João Claro, natural de Lisboa, mal consegue acreditar na volta que conseguiu dar à vida: “Se não fosse pela Academia de Código, certamente não teria saído tão cedo da bomba. Mantinha-me numa vida muito menos desafiante, sem grande perspetiva de evolução e sempre a contar os trocos”, resume.
João Claro teve um percurso escolar atribulado e desistiu do ensino antes mesmo de acabar o secundário. A falta de estudos condicionou-o na hora de entrar no mercado de trabalho e fê-lo ter receio de não ser selecionado para o projeto. Tal não aconteceu. João foi escolhido e, depois de se despedir da bomba, apostou as fichas todas nesta “oportunidade única”.

“Foram três meses extraordinários e muito, mas mesmo muito intensos”, diz. No final, estava pronto a trabalhar em programação e, cumprindo o estabelecido na inscrição, procurou emprego no Fundão.

Encontrou-o na Logicalis, uma empresa de origem holandesa que se fixou no Centro de Negócios do Fundão em 2016 e que tem cerca de 20 trabalhadores.

Ana Tomás, 27 anos, licenciada em pintura e com um ano de mestrado em desenho, integra a mesma equipa. Foi contratada em novembro, também depois de ter frequentado a Academia de Código. Mudou-se de “armas e bagagens” para a cidade onde nunca tinha estado até ao início do projeto.

“Não podia estar mais satisfeita. Isto permitiu-me encontrar um primeiro emprego a sério com a vantagem de estar numa empresa com ótimas condições e com ótimo ambiente”, diz, revelando que pretende renovar o contrato inicial por tempo indeterminado.

A viver nesta cidade do distrito de Castelo Branco está também Joana Contente, 34 anos, que decidiu “reprogramar” a sua vida e fazer uma pausa numa carreira de 11 anos ligada à área em que estudou. Com licenciatura em Estudos Teatrais e mestrado em Performance Artística, Joana Contente assume que teve “a sorte” de nunca estar no desemprego, mas ainda assim teve necessidade de fazer uma pausa e experimentar outras coisas.

Por essa altura, ainda não fazia ideia que haveria de integrar a Academia de Código e que durante três meses iria viver “a um ritmo absolutamente frenético e de aprendizagem constante”, nem tão pouco que no final haveria de ser selecionada para trabalhar na Altran, multinacional que está instalada no Fundão.

A mudança foi total e vai de encontro ao que Joana Contente procurava: “Mudar de carreira é poder viver duas vezes. É exatamente essa a sensação que eu tenho e portanto vou aproveitar tudo isto ao máximo, desde a profissão à cidade”, conta.
Pavel Racu, 28 anos, licenciado em engenharia civil, também já está a viver uma segunda oportunidade profissional. Músico nos tempos livres, antes de chegar ao projeto, Pavel Racu, que vivia em Lisboa, nunca trabalhou na sua área de formação, não só porque quanto terminou o curso já o setor estava em crise, mas também porque se desiludiu com a área.

Quando terminou o ensino superior, manteve-se nos “call center” que já conhecia do tempo de estudante e passou por uma empresa de telecomunicações, mas acabou por sair. Nessa altura, a programação já estava na lista de objetivos e por isso não pensou duas vezes quando soube da Academia de Código. Depois, tudo mudou. Hoje, Pavel Racu já não tem de enviar vários currículos por semana. Está a trabalhar na Altran e com um plano de progressão profissional delineado.

Os prós e contras de viver no Fundão

Elogios e alguns reparos. Em traços gerais estes novos habitantes do Fundão gostam de viver na cidade e apreciam o facto de se deslocarem a pé para o trabalho. A calma, a inexistência de filas de trânsito ou de metros apinhados de gente e o acolhimento por parte das pessoas são aspetos que destacam como positivos. Por outro lado, a falta de transportes públicos permanentes, bem como a reduzida oferta cultural são alguns dos pontos que colocariam no item “a melhorar”.

Catarina Canotilho