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Últimos moradores saíram dias antes da aldeia arder

(c) Catarina Canotilho/JF

O Casal de Santa Maria, um pequeno aglomerado de casas, situado a poucos quilómetros do Telhado (Fundão), deixou de ter moradores, na semana passada, passando a ser mais uma aldeia de silêncio, abandono e ruína.

Os últimos dois habitantes – Horácio Pereira e a mulher, Maria do Carmo – resistiram sozinhos, durante mais de uma dúzia de anos, naquele lugar que agora já não tem ninguém. Também eles acabaram por abandonar o local, indo morar na aldeia do Telhado. Não o fizeram por iniciativa própria, mas por razões de segurança e porque deixou de haver condições para ali permanecerem.

Não terá sido fácil para o casal de idosos que, ao longo dos anos, foi assistindo à debandada dos outros moradores. Por amor à terra, resistiram enquanto puderam. Diziam que queriam continuar ali e viver.
“O meu sangue está nesta terra e ainda não perdi a vontade de cá morar”, disse Horácio Pereira, em 2008 ao Diário de Notícias.

Foram ficando e habituaram-se a estar sozinhos, a viver isolados num lugar que chegou a ter cerca de oitenta moradores. Na semana passada, também eles partiram, deixando para trás muitas vivências e memórias. E o Casal de Santa Maria passou a ser mais um daqueles lugares isolados, sem vivalma.

Já ninguém lá mora. Tudo é abandono e ruína. E pior ficou na semana passada, quando as chamas vindas da freguesia do Barco, destruíram quase todas as casas daquele lugar.

A casa de Horácio Pereira e de Maria do Carmo não chegou a arder toda, ao contrário de outras. Os últimos moradores foram várias vezes assaltados nos últimos tempos e a pedido de um filho que está emigrado na Suíça, a Junta de Freguesia do Telhado resolveu a questão, deslocando o casal para a sede de freguesia. Com a ajuda do filho, da Junta e da população, foram morar para uma casa com melhores condições, passando também a estar em segurança.

Saíram a tempo do Casal de Santa Maria. Cerca de uma semana depois, o fogo destruiu quase tudo. “Parece que estávamos a adivinhar. O casal de idosos foi algumas vezes assaltado e o filho pediu-nos ajuda”, explicou ao JF o presidente da Junta, destacando a ajuda de muitos que contribuiram para resolver o problema.