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Televisão espanhola ainda é vista na zona raiana

António Reinas - (c) Paulo Novais/Lusa

Numa altura em que se assinalam 25 anos da televisão privada em Portugal, verifica-se que no nosso país ainda há muita gente que mantém o hábito de ver os canais espanhóis. É isso que acontece nas zonas raianas, como por exemplo em Vilar Formoso.

 

Aqui, a Liga espanhola de futebol é seguida por alguns com o mesmo entusiasmo da portuguesa, as touradas transmitidas na televisão espanhola reúnem público nos cafés, joga-se à lotaria “El Gordo”, nas redes sociais comenta-se o espaço de debate desportivo “El chiringuito de Jugones”. As “Crónicas marcianas”, “Verano azul” ou o “El hormiguero” são programas que muitos recordam.

“Desde pequeno que a televisão que vejo foi sempre a espanhola”, diz Carlos Ribeiro, de 45 anos, que começou por ver televisão em castelhano quando em Portugal só havia televisão pública.

Em Espanha, sempre encontrou programas mais agradáveis para os jovens e crianças e o hábito que criou de pequeno manteve-se com a entrada dos privados em Portugal, a partir de 1992.

No entanto, os espanhóis sempre se anteciparam. As privadas Antena 3 e Telecinco arrancaram em 1990 e a Televisão Digital Terrestre (TDT) começou a funcionar em 2000, alargando a sua oferta ao longo dos anos.

“Conseguimos apanhar 30 e tal canais em sinal aberto, com programas variadíssimos: dos touros ao futebol, informativos, desportivos ou regionais”, nota o habitante de Vilar Formoso, que considera que a entrada da TDT espanhola “potenciou bastante o consumo de televisão” do país vizinho.

Ainda hoje, em sua casa, a televisão espanhola ganha terreno à portuguesa.

“O tipo de programas que passam é mais apetecível de ver, é mais divertido, mais informativo. Em Portugal, só passam telenovelas [em horário nobre]”, sublinha.

António Reinas, radialista em Vilar Formoso, constata que não há uma discrepância “tão grande” entre o que a população do lado de lá da fronteira e o que as gentes da vila raiana consomem.

“Reconhecemo-nos na cultura espanhola”, refere, salientando que “toda a gente, de uma forma geral, consome televisão espanhola”, pela proximidade, mas também pela atratividade que a cultura do país vizinho tem naquela zona.

Apesar de constatar que o hábito de consumo da televisão espanhola já foi maior do que é hoje, a TDT de Espanha continua a ter impacto e a criar raízes desde cedo, muito por culpa dos dois canais existentes focados em conteúdos infantojuvenis.

No primeiro restaurante depois da fronteira, é quase obrigatório ter o televisor num canal português, por causa dos emigrantes que chegam. No entanto, em casa, o proprietário do estabelecimento, Ricardo Rico, vê programas espanhóis.

“Quando me apanho sozinho em casa, vou sempre espreitar o que está a dar no La Sexta”, conta, à Lusa.

As suas filhas cresceram a ver programas infantis em castelhano, mas hoje, já adolescentes, “preferem ver sempre televisão portuguesa”.

Para Ricardo Rico, a maior mudança de hábitos de consumo veio com a oferta de pacotes por parte das operadoras de telecomunicações, aumentando a variedade de conteúdos em português.

Luísa Antunes - (c) Paulo Novais/Lusa

Luísa Antunes – (c) Paulo Novais/Lusa

Em casa de Luísa Antunes, os serões e as horas de almoço são divididas entre os dois idiomas.

A mãe não perde as telenovelas portuguesas, mas os Simpsons dobrados em espanhol são um hábito à hora de almoço, conta a dentista de 33 anos que não precisou de aulas de castelhano para entrar na universidade em Espanha.

“Eu aprendi espanhol a ver desenhos animados”, frisa Luísa, que garante que o hábito de ver programas do país vizinho “vai persistir”.