InícioSociedadeLobo da Costa: o histórico lutador de wrestling do Fundão

Lobo da Costa: o histórico lutador de wrestling do Fundão

Nasceu na Rua da Cale, na antiga vila do Fundão, em 1925. António Martins Lobo da Costa Júnior tem 92 anos e uma lucidez e memória invejáveis. Foi  profissional de luta livre. Foi o irmão de Amália Rodrigues, Filipe Rebordão, que na altura era campeão de boxe, que o convenceu a assistir a uns treinos de boxe, luta livre e luta greco-romana. A partir daí o bichinho por esta modalidade nunca mais parou

JORNAL DO FUNDÃO – Que memórias do Fundão dos anos que cá viveu?
LOBO DA COSTA – As memórias que tenho são da minha meninice, as brincadeiras com os colegas da escola, pois costumávamos ir para a Quinta do Amaral apanhar figos e pássaros, para tal brincadeira, nós usávamos os “costís”, que era uma espécie de ratoeira. Lembro-me ainda da inauguração do chafariz das Oito Bicas. Na altura foi uma grande festa, pois havia muita falta de água e era uma necessidade para a vila. A minha casa ficava ao lado da Residência do José Alves Monteiro. Lembro-me da romaria da Santa Luzia.

Até aos 9 anos estudou na Aldeia Nova do Cabo, ainda se recorda?
Recordo-me perfeitamente, claro! (risos). Do caminho que fazíamos todos os dias para a escola e de alguns dos colegas que comigo brincavam; portanto, nessa altura tudo servia de entretenimento. Brincávamos com tudo o que nos aparecia à frente, fazíamos o jogo da bilharda. Sabe o que é? Recordo-me da escola muito bem, ficava perto do chafariz, mesmo perto do fim da aldeia a caminho do Souto da Casa.

Há quantos anos não visita o Fundão?
Não vou ao Fundão há cerca de cinco ou seis anos. O Fundão está irreconhecível, lembro-me da primeira vez que lá voltei depois de ter regressado de Angola e já estava completamente diferente; hoje em dia nem se fala, mas ficou-me sempre na memória dos mercados à segunda-feira por detrás da Câmara Municipal, a feira do gado que, para mim, era uma animação ver todos aqueles animais. E não me esqueço de quando tinha uns 7 anos de um médico, o Dr. João José do Amaral, que seguramente me salvou a vida, pois tive um problema de saúde e foi ele que me tratou.

Com a morte do seu pai foi para Lisboa, tendo estudado até aos 17 na Casa Pia. Nessa altura era conhecido na instituição pelo ”Fundão”. Frequentou o curso de serralharia e mecânica. Foi uma verdadeira escola da vida?
Sem dúvida. Foi lá que aprendi esses dois ofícios, que fizeram muita diferença ao longo da minha vida, e que ajudou imenso quando regressei de Angola. Fiquei mais resistente. Foi lá também, como se diz na gíria: “despertei para o mundo”. Foram uns bons anos que ali passei, era uma educação bem rígida, mas tornou-me mais forte, aprendi muito e, também, fiz bons amigos. Foram anos que irão perpetuar na minha memória.

Um dia passou pelo Parque Mayer e encontrou-se com o irmão da Amália Rodrigues, o Filipe Rebordão. Foi convidado a assistir a uns treinos de boxe, luta livre e luta greco-romana. Foi ele o responsável por ter abraçado esta modalidade?
Sim, sem sombra de dúvida, se ele não me tivesse convidado, provavelmente nunca teria sido lutador. Ele na altura era campeão e quando me convidou aceitei de imediato, depois o gosto pela luta foi crescendo dia-a-dia.

Lembra-se do seu primeiro combate, no Choupal, em Coimbra? E o combate no Parque das Camélias, no Porto, com o alemão Max?
Lembro-me como se fosse hoje. Foram dois combates que ficarão para sempre na minha memória. No Choupal saí do recinto aos ombros do público, assim como no Porto onde fui levado desde o Parque das Camélias até à Avenida dos Aliados. Havia imensos cartazes com frases muito encorajadoras, o que me dava mais força e vontade de continuar e de ser melhor lutador.

Em 1950 foi campeão regional. Como foi vivida essa experiência?
Uma sensação indescritível! Quem não gosta de ganhar? Eu fazia aquilo que eu gostava mais. São recordações para a vida. Uma experiência inesquecível ver e sentir o público ao rubro. É orgulho enorme, uma alegria imensa, uma sensação mesmo difícil de explicar, hoje tenho uma saudade enorme desses tempos.

Participou em vários filmes. Gostou dessa experiência?
Gostei muito, apesar de terem sido papéis pequenos, deram-me bastante gozo fazê-los. O Grande Elias, Burgueses Malteses e Às Vezes, Capitão Sagrid, entre outros. Foi muito bom fazer, lidar com artistas famosos, foi mais um “ofício que aprendi”.

Foi para Angola e casou em 1955. Os combates continuaram em Luanda?
Em 1954 fui convidado para ir para Luanda fazer diversos combates. Gostei tanto daquela terra que acabei por lá ficar. Em 1955 casei e fiquei algum tempo sem combater, mas nunca deixei de treinar. Arranjei trabalho no Porto de Luanda como Encarregado de Estiva. Comecei a ensinar atletas que se mostravam interesse no boxe e na luta livre, chegando a organizar alguns combates de pequena dimensão. Mais tarde voltei a fazer combates de alto nível com lutadores nacionais e internacionais.

Quando regressa a Portugal, em 1975, com quatro filhos menores, foi difícil integração?
Muito, muito, muito difícil! Nem imagina… Deixei uma vida inteira para trás. Era impossível permanecer em Angola com a guerra instalada. Saímos de lá sem absolutamente nada e com quatro filhos pequenos foi muito difícil, muito duro. Trabalhei noite e dia para os poder sustentar, valeu-me os ofícios que aprendi na Casa Pia.

Diga-me uma coisa, como é que se preparava um jovem de alta competição?
Com muito treino, muita dedicação, incutindo-lhes o gosto pela modalidade, pois só com paixão por esta arte é que se consegue trabalhar para ser o melhor. Temos sempre que nos esforçar ao máximo, dar cem por cento, incentivar o atleta, saber compreendê-lo, saber quando precisa de mais ânimo para assim poder trabalhar melhor. Tudo se consegue com esforço, dedicação e auto estima e é com estas três coisas que se faz um campeão.

Teve uma pista de karts, construiu um parque de diversões, com pistas para automóveis, cadeiras voadoras e um pequeno zoológico. Aos 92 anos ficou alguma coisa por fazer?
Muitas, muitas coisas! Nós podemos sempre fazer mais, infelizmente a vida não me permitiu fazer mais. Sei que fiz muita coisa, aventurei-me em muita coisa, mas há sempre algo que podemos fazer e que eu gostava de ter feito e de ter experimentado.

Que conselhos diria aos jovens que se dedicam a essa modalidade?
Que não deixem o boxe e a luta livre morrer, pois é um desporto fascinante, dediquem-se, esforcem-se, pois tudo se consegue quando queremos e acreditamos.

Pedro Silveira