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Quando o fogo derrota todas as promessas

Sábado, 24 de junho. Passam sete dias sobre a tragédia que destruiu vidas (64 mortos, mais de 200 feridos), que tirou casas e sustento a dezenas de famílias. O fogo de Pedrógão Grande – assim denominado pelo facto de se ter iniciado neste concelho – passeou-se por onde quis durante quatro dias na extensa área de floresta dos distritos de Leiria, Castelo Branco e Coimbra, ignorando todas as formas de luta que chegavam por terra e pelo ar.

Não fossem as vidas ceifadas, este incêndio teria tratamento igual a tantos outros que visitam, a cada verão, os habitantes do território rural, que estou agora a atravessar de carro. A paisagem verde – como que um tapete visual – o cheiro a pinho e estevas sugerem que se está em segurança neste interior sinónimo de liberdade.

Porque arde a floresta todos os anos?
Os pensamentos são interrompidos com a música que passa na rádio. “Basta uma árvore para fazer mil fósforos. Basta um fósforo para queimar mil árvores”, diz o refrão da canção “A Thousand Trees”, dos Stereophonics. Este manto verde que se estende à nossa frente, que não desaparece a cada curva que faço na estrada, é mais frágil do que possa aparecer.

“É tão certinho como estarmos aqui. A qualquer momento este pinhal pode arder, como já aconteceu”, diz Joaquim Silva, sentado num dos rolos de madeira cortada que está amontoada junto à habitação, nas Casas da Zebreira, Oleiros. Está à espera de um “moço” para rachar aqueles troncos – restos deixados pelo madeireiro num pequeno pinhal que vendeu recentemente – que arderão na lareira da cozinha no inverno.

As gentes do Interior já viram crescer pinheiros dezenas de vezes para depois chegar o fogo e levar tudo. Quem aqui vive culpa os governos que não protegem o património de cada um, os alegados interesses nos meios de combate a incêndio, os incendiários que “são apanhados e depois libertados porque são dados como maluquinhos”.

A floresta arde todos os anos. Porquê?

Toda a reportagem na edição impressa do JF.

Célia Domingues