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As velhas lojas onde a idade é um posto

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Roteiro por espaços comerciais antigos da Covilhã, Fundão e Belmonte. Marcaram e continuam a marcar o quotidiano das localidades e de diferente gerações.

O sol nasce e a Casa do Leão abre portas. É assim, imagine-se, há quase 200 anos! No número 37 da Rua 1.º Dezembro, na Covilhã, próximo das traseiras do edifício dos Paços do Concelho, ou seja em pleno coração da zona histórica, ainda mora o estabelecimento comercial mais antigo da cidade e da região. Calcula-se que é mesmo o segundo do país.

Bastião da resistência do comércio tradicional, a Casa do Leão constitui um caso singular. Continua a resistir às adversidades do tempo. Na cidade é famosa. Toda a gente a identifica. Há quem agora lhe chame a “loja do Toneca”. António de Almeida Matos trabalha no estabelecimento há mais de 70 anos. Nos dias que correm ainda abre a porta, “por vezes às sete da manhã” e atende clientes ou fala com quem passa, “desfiando recordações”. É uma figura carismática. Os cabelos brancos são o espelho dos 87 anos de vida, quase toda à frente do balcão. Sempre com uma relação de simpatia exemplar com “a freguesia”. Relembra o tempo em que a Casa Leão dominava o centro histórico, tendo chegado a empregar 17 funcionários para atender as cercas de 50 fábricas de lanifícios que ali compravam material. Quando atendia mais de uma centena de clientes por dia e se formavam filas de gente à entrada das portas onde ainda hoje predomina a estampa do Leão.

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Nos anos 30 do século passado, a Casa do Leão vendia ferragens, ferramentas, metais, ferro, aço, armas e munições, tintas, materiais de construção. Tinha também várias consignações e representava algumas instituições bancárias.

O senhor António tem o filho a trabalhar consigo. João Matos gere a loja há 40 anos. Não escondem as dificuldades mas tiveram o mérito de se adaptar e resistir aos novos e difíceis tempos do comércio tradicional. O estabelecimento adaptou-se e passou a dedicar-se exclusivamente à venda de ferragens.

A Casa do Leão constitui um símbolo da urbe. Faz parte, indiscutivelmente, da sua história. Recentemente, no 20 de outubro, dia em que a Covilhã comemorou 146 anos de elevação à categoria de Cidade, a Câmara distinguiu-a com a Medalha de Mérito Municipal como reconhecimento pelos serviços prestados, contribuindo para o prestígio e projeção da região.

Os 81 anos da Casa Saraiva

A cerca de vinte quilómetros de distância, no Fundão, a história da Casa Saraiva confunde-se também com a história recente do próprio concelho. Fundada por António Cardeiro Saraiva, abriu as portas a 8 de dezembro de 1935 e lá continua à espera do público. Pela porta do número 8, da Rua 5 de Outubro, no Fundão, entraram nos últimos 81 anos muitos milhares de clientes.

Por aquela casa comercial também passou muito do pulsar da vida quotidiana da vila do Fundão, entretanto, elevada a cidade, desde a década de trinta até aos dias de hoje.

As instalações foram sofrendo alterações mas o estabelecimento comercial continuou sempre a morar no mesmo prédio. De nome mudou a rua, passando de Avelino Cardoso para 5 de outubro.

Em 81 anos de vida que completará no próximo dia 8 de dezembro, a conhecida Casa Saraiva apenas mudou de mãos uma vez. Foi em janeiro de 1994, quando passou da família Saraiva para um casal de emigrantes que decidiu regressar ao concelho de origem para investir.

Alfredo Custódio e a mulher Natália Custódio fez negócio com a família fundadora. Manteve o ramo, continuando com as ferragens, drogaria, material elétrico, um número infindável de utilidades e, até mesmo, uma trabalhadora que foi fundamental na ligação com os clientes.

Vinte e dois anos depois, o negócio vai andando, embora sem a prosperidade de outros tempos, devido à famigerada concorrência das grandes superfícies.

“Vamos tentando aguentar”, disse ao JF Susana Santos, que trabalha na loja e é filha do patrão, lamentando que o Fundão esteja “cada vez mais deserto”.

Durante décadas, o quotidiano da loja Saraiva foi bem diferente. Manuel Saraiva, advogado e filho do fundador, recorda os dias em que todas as ajudas eram poucas para fazer face a tanta procura por parte dos clientes.

“Nos dias das feiras anuais de S. Mateus e de S. Marcos, toda a família era convocada para ajudar, apesar de haver vários trabalhadores na loja”.

A Casa Saraiva continua a ser uma empresa familiar. Atualmente, dá trabalho a três pessoas e conta com a colaboração de uma quarta nos dias de mais movimento.

Nesta loja consegue-se encontrar quase tudo. São milhares de produtos de diferentes dimensões à espera das solicitações dos clientes.

O espaço, que não é amplo, está milimetricamente aproveitado. Há centenas de produtos expostos e muitos mais acondicionados em inúmeras gavetas e gavetinhas, que quando se abrem parecem míni-armazéns, onde nada é deixado ao acaso.

“Sabemos onde está tudo”, confere Susana Santos, argumentando que foi preciso algum tempo até se familiar com tantos e tão diferentes produtos para vender.

A grande diversidade de oferta foi e continua a ser um trunfo da Casa Saraiva. Este estabelecimento comercial, que é um dos que tem o registo mais antigo na Associação Comercial e Industrial do Fundão, começou por vender materiais de construção, ferragens, ferramentas e artigos de papelaria, continuando a apostar em centenas de artigos difíceis de encontrar noutras lojas.

“Tentamos dar resposta às solicitações dos clientes”, confirma Susana Santos, enquanto se prepara para atender a próxima pessoa.

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Beber um café por 50 cêntimos

Em Belmonte, todos os caminhos vão dar ao Café Montebelo. Repita lá! Pois, por este nome ninguém o conhece, mas se dissermos Café do Zequinha a conversa muda de figura. Há mais de meio século que o estabelecimento comercial é o mais emblemático da vila, localizado bem no centro, na Rua Pedro Álvares Cabral e em frene à estátua do navegador.

Até 1949, foi uma loja de fazendas, mas um incêndio destruiu tudo e dois anos depois o espaço era convertido em café. Um dos primeiros da vila (havia outro junto à Câmara, que entretanto fechou).

A história do café confunde-se com a do proprietário, o sr. Zequinha. Quase ninguém sabe o seuverdadeiro nome. Ora, aqui fica: José Santos Costa. Problemas de visão levaram-no a passar muitos anos em Lisboa, em tratamento, e só em 1965, com a situação parcialmente resolvida, regressou a Belmonte. Os pais compraram o café para ele gerir e nunca mais de lá saiu, até hoje. Com 88 anos, continua por ali, diariamente, com a companheira de aventura, a esposa Alice Costa (22 anos mais nova). “Estamos aqui há mais de 50 anos. Esta foi e é a nossa vida, uma vida de sacrifício, de muito trabalho.”

Empreendedores como poucos, não se contentaram com o café. Ele ainda foi presidente da Junta de Freguesia de Belmonte. Ao mesmo tempo criaram fábrica de batatas fritas, onde chegaram a trabalhar nove funcionárias. “Um ficava no café e o outro ia distribuir as batatas pela região. Foi assim durante 20 anos”, conta a dona Alice, revelando algumas agruras: “Durante estes anos todos, nunca fomos de férias em família. Eu ia com os meus filhos (um rapaz e uma rapariga com sete anos de diferença) até à praia, mas o meu marido ficava. Noutras ocasiões era ele que precisava de ir a Lisboa ou a outros sítios e eu ficava. Isto não é para todos. Posso dizer-lhe que em todo o ano, só fazemos uma refeição como casal, é na Consoada e apenas por breves minutos. Nos outros 364 dias do ano, eu como a uma hora e o meu marido a outra. Abrimos todos os dias.”

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Mas esta dedicação e esta disponibilidade fizeram do Café do Zequinha o mais frequentado. Chegou a fazer encomendas de tabaco no valor de 300 contos. Tornou-se uma das primeiras agências da região dos jogos da Santa Casa, tendo entregue vários prémios na ordem dos 20 mil contos. Ali se vendiam centenas de jornais diariamente. Durante muito tempo era o único local que tinha bolos, amêndoas da Páscoa e chocolates do Natal.

E depois há o café para beber, o melhor café de Belmonte, como garantem alguns dos clientes que não o dispensam, não o tomam noutro sítio. Pudemos comprovar essa ideia. É realmente bom. E com uma vantagem única, continua a custar a quantia redonda de 50 cêntimos!

Foi também para tomar um café que ali pararam grandes vultos da história portuguesa, incluindo primeiros-ministros e Presidentes da República, como Ramalho Eanes, Mário Soares, Jorge Sampaio, António Guterres… “Não me recordo se o Cavaco Silva cá veio, mas lembro-me bem daquele brasileiro, o Kubitschek”, afirma a Dona Alice, entre sorrisos.

O Café do Zequinha está para durar e o casal gostaria de ver o filho mais velho a tomar conta do espaço no futuro.

Romão Vieira, Lúcia Reis e Filipe Sanches