InícioSociedadeA alegria das flores contra a triste herança do fogo

A alegria das flores contra a triste herança do fogo

A NATUREZA e a primavera estão a trabalhar em parceria na extensa área ardida pelo maior incêndio do verão passado. Na tarde do fatídico dia 7 de setembro a população de sete aldeias do concelho de Proença-a-Nova (Braçal, Amoreira, Casalinho, Vale D’Urso, Atalaias, Pucariço e Figueira) viram o  “diabo em chamas que veio do Braçal (localidade onde começou o incêndio)” devorou tudo o que encontrou, pinheiros, oliveiras, currais, arrecadações, deixando atrás de si 847 hectares de destruição.

“Até os animais se assustam com aquilo, tudo negro, com uma ervinha aqui ou ali, uma tristeza”, diz-nos Maria do Rosário Campos, da aldeia da Figueira, à porta do seu curral com quatro cabras. Nas encostas vestidas a negro e cinzento avistam-se autênticos “ilhéus” de cores verdes ou amarelas, vegetação puxada pela frescura da manhã e o calor dos dias.

“Na minha vida já não vou ver o pinhal crescido”, diz desolada Maria do Rosário Campos, de 80 anos. No dia do incêndio, não perdeu o rebanho por pouco. Face à ameaça das chamas, foi obrigada a sair de casa com o marido, mas regressou na mesma tarde. Com a GNR deparou-se com “fogueirinhas” à volta do curral. “Abrimos a porta e fiquei ali a guardá-la. Depois vieram os bombeiros”, recorda. O resto é para esquecer. “Perdi tudo, pinhal, oliveiras e a fazenda”. As lágrimas caem-lhe do rosto. “Nem uma folha de couve se salvou”.

“Ofereceram-me estes vasos de flores à porta e prometi que os vou tratar bem”. Assim o faz Maria do Rosário, da aldeia da Figueira, quando lhes deita agua todos os dias, antes ou depois de tratar as quatro cabras.

“Isto foi uma ideia muito engraçada porque parece que não, mas as flores são uma alegria, então não são?”. Olho para as flores roxas a procurar a luz da primavera e esqueço a encosta cinzenta no horizonte. “Tem toda a razão”.

Há 15 dias foram distribuídas 140 floreiras (com terra e sementes) e mais de 360 plantas do Viveiro Municipal aos moradores das aldeias de Figueira, Atalaias e Pucariço, Vale D’Urso, Casalinho, Amoreira e Braçal, no âmbito dos Projetos Florir Portugal e Fénix – Renascer das Cinzas pela Floresta.

Para além de dezenas de voluntários terem plantado e semeado flores, foram ainda feitas intervenções de limpeza de caminhos e recolha de lixo, numa ação simbólica que visou tornar mais colorida uma paisagem onde ainda predominam os tons mais escuros.

Veja toda a reportagem na edição impressa do JF.

Célia Domingues