InícioSociedadeRafael, o “menino frágil” que não aceita impossíveis

Rafael, o “menino frágil” que não aceita impossíveis

Há 23 anos o JF deu a conhecer a história de Rafael, o menino de Dornelas que nasceu sem um braço e sem as pernas. Duas décadas depois fomos ver onde anda e o que faz este “menino” herói

Rafael, o menino de Dornelas que nasceu em 1992 sem o braço esquerdo e as duas pernas (deficiências que não foram detetadas nas ecografias feitas porque o ecógrafo tinha defeito) e que o JF trouxe à luz do dia em 1994, tem hoje 23 anos. Quando todos pensavam que o menino de Dornelas estaria condenado enganaram-se.

Rafael Ramos cresceu com a deficiência que lhe roubou uma infância normal mas não lhe roubou a vida nem a vontade de sorrir. Rafael não desistiu. É um sobrevivente. Um herói que soube adaptar-se às dificuldades e hoje tenta fazer uma vida o mais normal possível. Trabalha na Câmara Municipal da Lousã como administrativo na Biblioteca Municipal.

Rafael Ramos frequentou o Jardim de Infância e a escola primária em Dornelas do Zêzere, tendo também concluído o sexto ano, na antiga Telescola. “Fui muito feliz na minha terra. Na escola, as crianças sempre me receberam bem. Eu era uma criança bem integrada e nos recreios jogava futebol, pintava, escrevia, brincava na areia, fazia puzzles. Eu considerava-me uma criança igual às outras. Muito sinceramente, as minhas limitações nunca foram um problema”, refere Rafael Ramos ao JF.

Com 10 anos, Rafael foi para Lousã e entrou para Associação para a Recuperação de Cidadãos Inadaptados daquela localidade onde permaneceu doze anos.
“A maior dificuldade foi precisamente quando deixei a terra para dar continuidade aos meus estudos. Foi um processo difícil porque tive que deixar os meus pais. Vinha de ummeio pequeno e de uma escola e uma turma com poucos alunos. De repente, estou numa escola com 300 alunos. Inicialmente, os meus colegas olharam para mim com alguma desconfiança. O que eu achei normal. Colocavam-me um pouco de parte, mas, rapidamente, dei a volta à situação. Como? (risos). Um dia estava no intervalo e tinha muita vontade de jogar futebol, mesmo muita vontade. Bom, saltei da cadeira de rodas e começo a jogar futebol… Com a mão, claro. A partir daí tudo mudou. Todos me queriam ajudar nas tarefas diárias da escola: abrir a mochila, ir ao bar… Quando saia da escola costumava ir jogar futebol para um espaço com piso sintético. Juntavam-se ali umas 40/50 pessoas para me verem jogar (risos)”, recorda Rafael entre sorrisos.

Mas a superação de obstáculos começou mais cedo. O gosto pelo desporto sempre o acompanhou e não foi a sua deficiência que lhe pôs travão. “Quando frequentava o ciclo o meu professor de Educação Física perguntou-me um dia: não vens para a piscina porquê? E eu respondi-lhe: não sei nadar. Foi o suficiente para entrar na água e aprender a nadar”, revela ainda. Rafael Ramos diz que não foi apurado para os Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro “porque este não era um dos meus objetivos.” Mas perante tanta força de vontade e tanta insistência para fazer o que mais gosta, quem sabe se um dia não estabelece como objetivo ir a uma grande competição internacional representar Portugal.

surf

Rafael Ramos é trabalhador estudante. Trabalha na biblioteca da Lousã e todos os dias vai a Coimbra onde frequenta o 12.º ano na Escola Secundária Jaime Cortesão. “Depois do trabalho vou para Coimbra e regresso a casa já perto da meia noite. Estou a fazer duas cadeiras. É difícil, mas a vida não é feita de facilidade e se se quer alguma coisa temos de lutar por ela com esforço e resistência”, esclarece Rafael. O seu primeiro trabalho foi na Provedoria Municipal das Pessoas com Incapacidade da Lousã. Quando terminar o 12.º ano quer concorrer ao ensino superior. “Gosto muito do curso de Línguas sobretudo de Inglês”. Mas para além de estudar Rafael quer ainda mais. “Um dos meus próximos objetivos passa por tirar a carta de condução”, diz ao JF.

Uma das paixões de Rafael é o surf. “Adoro surf e pratico-o quando posso. Costumo ir à Figueira da Foz, à praia do Cabedelo para surfar. É uma sensação de liberdade”, diz com um sorriso nos lábios.

De há uns anos para cá, Rafael conquistou um novo apoio. Sandra Barreira, a namorada que conheceu no trabalho. “Éramos colegas de trabalho… e aconteceu. Ajuda-me muito… é uma grande mulher…é especial. É um grande apoio na minha vida”, conta ao JF.

namoradaPara além de todos os projetos que Rafael mencionou há um outro mais arrojado que poderá ver a luz do dia em breve. O “menino de Dornelas” quer passar a papel a sua história de vida, de resistência e de sobrevivência. Quer por nas páginas de um livro a sua determinação perante as dificuldades da vida e assim ser exemplo para todos. “Eu e o meu escritor, apoiado pela Editora Chiado, vamos escrever um livro relatando um pouco a estória da minha vida, o meu percurso. Será um livro com esperança”, diz orgulhoso dos seus projetos.

Rafael Ramos, o menino de Dornelas é um jovem que luta pelos seus sonhos. Amado e respeitado pelos seus amigos continua a ser um exemplo para que o conhece.

Rafael é simplesmente um jovem feliz com muitos sonhos.

Pedro Silveira