InícioPolítica“A Covilhã está a precisar de uma terapia de choque”

“A Covilhã está a precisar de uma terapia de choque”

adolfo mesquita nunes

Entrevista ao primeiro candidato anunciado à Câmara Municipal da Covilhã, Adolfo Mesquita Nunes (antigo secretário de Estado do Governo de Passos Coelho), escolhido pelo CDS/PP

JORNAL DO FUNDÃO – É o candidato do CDS/PP à Câmara da Covilhã. O que o levou a aceitar este desafio?

ADOLFO MESQUITA NUNES – Aceito com muito entusiasmo e determinação o convite que o CDS/PP da Covilhã me fez para ser cabeça de lista à Câmara Municipal. E aceitei porque estou preocupado com a situação da cidade e com as repercussões que terá no futuro para os covilhanenses. Neste sentido penso ter a estratégia e a liderança certa para ajudar a travar o fenómeno de perda de relevância da cidade.

Não o preocupa que os covilhanenses não o possam conhecer?

O que é importante é que os covilhanenses conheçam o projeto que vou apresentar para a cidade e para o concelho. Que se identifiquem com o estilo de liderança que procuro trazer e com o diagnóstico que faço da cidade. Apresento-me a estas eleições tal e qual como sou, com o passado que tenho e com as ideias que defendo com ambição máxima. Conheço muito bem a cidade e o concelho. Vivi grande parte da minha vida na Covilhã. Não nasci cá mas vim com três anos para a Covilhã e só de cá saí quando fui para a faculdade.

Disse que é candidato porque está preocupado com a situação da cidade. Que avaliação faz a estes últimos quatro anos de governação socialista na autarquia?

A Covilhã está parada no tempo. Parada no tempo do investimento, do emprego, das oportunidades, da animação turística e cultural. Isto tem como consequência a desertificação e uma perda de relevância do concelho na Beira Interior sobretudo quando comparamos a Covilhã com cidades próximas como Viseu, Guarda ou Fundão. E isto é consequencia de uma gestão camarária que não se tem caracterizado pela proatividade, pela criatividade nem pela ambição.

E como pretende mostrar aos covilhanenses que pode fazer diferente se for eleito presidente?

A Covilhã tem neste momento quatro desafios muito importantes a que é preciso dar resposta. O primeiro é o do investimento. O segundo o emprego, o terceiro o turismo e por fim a cultura.

Vamos por partes… No que diz respeito ao investimento é minha opinião que a Covilhã está a precisar de uma terapia de choque. Não há estratégia para a captação de investimento. A captação de investimento não se faz nos Paços do Concelho. É preciso pegar nas malas e ir buscá-lo. E isso implica proatividade, criatividade e imaginação. Atenção que isto não tem nada a ver com boa ou má vontade, com honestidade ou desonestidade. Tem a ver com energia e capacidade. É importante que os atores da Covilhã sejam eles públicos ou privados estejam alinhados com a estratégia da autarquia para a captação de investimento.

O facto de ter estado no governo pode ser uma mais-valia para ajudar à captação desse investimento de que fala? Acha que está numa posição privilegiada em relação a outros candidatos?

Eu venho fazer política pela positiva. Não tenciono criticar os outros candidatos. É preciso apresentar uma nova forma de fazer política. Todos queremos certamente o melhor para o concelho e o que eu acho que posso trazer de novo será a minha estratégia (que o eleitorado irá avaliar se será a mais adequada ou não) e a minha liderança.

Falou do investimento e como se pode ou deve captar. E nos restantes pontos que apresentou…

Sim. Falemos agora de emprego. A Covilhã tem de ficar conhecida como a cidade do país onde é mais fácil criar e desenvolver um negócio. Para isso é preciso simplificar, facilitar e incentivar a criação de negócios. É tempo de não nos resignarmos à perda de relevância da cidade no contexto regional e para isso é necessário uma estratégia de desburocratização, simplificação e flexibilização da relação da autarquia com o tecido empresarial.

Este será talvez um dos pontos mais caro às pessoas: o emprego. Se houver emprego, há fixação de pessoas… havendo fixação de pessoas não há desertificação. Se for eleito presidente como é que tenciona resolver a falta de empregos no concelho?

Não é a Câmara que tem de criar emprego. Mas porque é que não há empregos na Covilhã? Porque tem sido descurada a captação de investimento. Isto é um facto. Não estou a dizer que não se tentou. Mas olhamos à volta, para as outras cidades e vemos investimentos e na Covilhã, não. Há aqui uma clara falha. Por isso digo que a cidade precisa de uma terapia de choque. E para isso é preciso que todos os atores públicos e privados estejam mobilizados. Pergunte-se aos empresários, à universidade, ao hospital… qual é a estratégia para a captação de investimento no concelho e se não souberem dizer já estamos a perder. Não é suposto isto acontecer. Em segundo lugar é preciso que apareçam oportunidades e para aparecerem oportunidades é preciso que a relação e ligação de todas as partes seja boa. Por outro lado é preciso criar condições de atratividade que chamem as pessoas. Um empresário irá investir onde será mas fácil recrutar pessoas e as pessoa ficam numa cidade que lhes oferece bem estar, cultura, educação… E é isso que agora não acontece.

adolfo mesquita nunes

Falemos então agora do turismo. Esta é claramente a sua praia…

… Esta é uma área que conheço bem. O turismo representa nove por cento do PIB nacional é por isso uma área de economia. Não é algo a que podemos recorrer quando o resto está em crise. Gera emprego mas também investimento. A Covilhã tem muito potencial turístico para desenvolver. Isso não significa que está tudo por fazer mas significa que precisa de um impulso novo.

Falta falar da cultura…

Eu tenho uma visão abrangente no que diz respeito a animação cultural. Para que as pessoas não saiam da Covilhã, para fixar pessoas aqui tem de haver o que fazer, o que ver… ou seja uma programação cultural. Ora eu acho que nesta matéria a cidade está também parada. Podemos ter as melhores ideias, as melhores intenções. Mas uma cidade do Interior como a Covilhã ou tem uma Câmara com proatividade, imaginação e criatividade ou estará sempre a perder. Não é só uma questão de intenções, mas também de atitude. E é essa atitude que eu quero trazer.

Estes são para si os principais problemas da Covilhã?

São áreas estratégicas para voltar a colocar a Covilhã no mapa. Obviamente que há problemas porque qualquer cidade tem problemas, sejam eles sociais, ambientais… Eu não disse que estes eram os quatro principais problemas mas sim as áreas que precisam de uma terapia de choque, de imaginação para que a Covilhã deixe de estar parada no tempo.

O seu tio-avô, Luís Filipe Mesquita Nunes que presidiu à comissão administrativa no pós 25 de Abril dizia muitas vezes que a Serra da Estrela era um gigante adormecido. Acha que ainda é assim?

Pelo menos é uma joia que tem muito potencial.

Uma joia por lapidar…

…Para ir lapidando. Eu entendo que é mais importante discutir o que se pode fazer a partir daqui do que perder tempo a falar sobre o que se fez até agora. Há dois tipos de pessoas (pelo menos eu vejo-as assim): aqueles que dizem que tudo está condenado e que é melhor fechar a loja. E depois há aqueles que fizeram a Covilhã avançar ao longo dos séculos, que são aqueles que acham que pelo facto de estarmos localizados aqui não é uma fatalidade mas uma oportunidade. É preciso ter uma relação de cooperação descomplexada e forte com o Parque Natural para tirarmos o máximo de vantagens da serra que não se cingem obviamente à neve. A serra vai muito para além da neve. A Covilhã tem muito a ganhar com uma serra que tenha possibilidades 365 dias por ano e não apenas quando neva…

Mas queiramos quer não é a neve que atrai turistas…

Sim sem dúvida, mas também o geocaching, os percursos pedestres, assim como o bird watching, as caminhadas, os desportos radicais… tudo isto pode ser feito na Serra da Estrela ponderando os aspetos ambientais e turísticos. Quando se fala na serra há uma tendência para afunilar para um único aspeto. A serra são 365 dias de oportunidades.

Neste sentido não acha que fazia sentido haver uma região de turismo ou um polo de turismo da Serra da Estrela?

Vamos lá ver… se a estratégia de turismo fosse melhor quanto maior o número de regiões administrativas então o turismo estaria a piorar em relação ao passado. E isto não está a acontecer. No passado tínhamos 12 regiões de turismo e agora cinco e nunca o turismo esteve tão forte. O que é importante do ponto de vista da promoção é integrar a divulgação da serra no país. Porque promover a serra desgarrada das cidades, da região da Beira Interior, dos aeroportos que nos servem, estamos a condenar as oportunidades. Não se faz promoção turística da região com cada cidade a trabalhar cada uma para seu lado.

Não vive na Covilhã, tem a sua vida em Lisboa…

… Mas venho cá com muita regularidade. Tenho cá a minha família.

Tenciona mudar-se para cá durante a campanha?

Obviamente que sim. Não se pode fazer campanha à distância.

E se for eleito presidente?

Passarei a morar na Rua Direita onde vivi muitos anos. Mas deixe-me esclarecer uma coisa. Se o critério para se ser um bom presidente de Câmara é ter cá vivido a vida toda… há aí muitos. É só escolhermos a pessoa que vive cá há mais tempo. Se for esse o critério então é escolher o ancião da Covilhã…

Há muita gente que pensa assim… que o vão ver como um paraquedista.

Mas se o debate for sobre quem está há mais tempo na Covilhã coloco uma questão: se quem cá está há mais tempo conduziu a cidade e o concelho a esta situação de ponto morto então parece-me que temos de escolher o presidente através de outro critério. Eu não vou discutir doses de covilhanismo – devo estar a inventar uma palavra – se for para isso saio já desse debate. Mas há uma coisa que vou disputar que é a ambição e a proximidade e aí tenciono ser o campeão.

O facto de ter pertencido a um Governo que governou numa condição difícil, que tomou medidas difíceis e muito contestado não pode ser também um handicap para si?

Se a discussão nestas eleições autárquicas for sobre o governo anterior… então a Covilhã está a deixar escapar uma ótima oportunidade para discutir os seus problemas e como pode sair desta situação em que se encontra.

Mas pode acontecer…

É preciso trazer uma nova forma de encarar e discutir política na Covilhã. Eu não vou fazer blogs anónimos nem alimentar essa conversa. O importante é discutirmos os projetos que temos para a Covilhã. Certamente que todos os candidatos vão ter boas ideias e caberá aos covilhanenses escolher o melhor projeto.

Vai avançar como cabeça de lista do CDS/PP. Alguma vez esteve em cima da mesa a hipótese do CDS/PP apoiar uma lista de independentes como aconteceu há quatro anos ?

O CDS/PP decidiu avançar com uma candidatura própria e autónoma e aqui estou eu.

E o inverso que é o CDS/PP ir buscar alguém independente para ser candidato à Assembleia Municipal, por exemplo?

Neste momento estou a apresentar-me como candidato e aquilo que vou fazer a partir de agora depois de apresentar as quatro áreas estratégicas é ouvir a cidade e o concelho. Precisamos construir um programa e envolver as pessoas na construção desse programa. Quem o quiser fazer anonimamente agradeço… quem quiser dar a cara também agradeço. E no dia de hoje em que anuncio que sou candidato (segunda-feira, dia 16 de janeiro) não pedi apoio a ninguém. Esse é um caminho que vamos fazer a partir de agora.

Acha que o CDS/PP pode tirar partido da divisão interna no PSD local?

A minha postura nesta campanha é pela positiva. Não me vão ouvir dizer uma palavra sobre os outros candidatos muito menos sobre a situação interna nos outros partidos. Respeito o PSD e tenho respeito pessoal e politico pelo candidato que o PSD apresentou.

Qual é o seu objetivo nestas eleições?

A minha ambição é máxima e isso quer dizer que tenciono ter mais votos do que o CDS/PP teve nas últimas eleições que concorreu sozinho.

Um dos assuntos recorrentes quando há eleições autárquicas são as dívidas das Câmaras. A Covilhã não foge à regra e a divida é sempre um dos pontos de discussão. Se ganhar as eleições teme que esta questão possa condicionar a sua ação?

Eu fui secretário de Estado do Turismo e fui confrontado com um corte de 30 por cento do meu orçamento. E foi então que fizemos as melhores campanhas em Portugal para o turismo. O que quero dizer com isto é que é possível fazer sempre mais ou menos, mas a dívida não pode ser uma desculpa para não se fazer. Não quero com isto dizer que a dívida não seja um fardo. Acho que é uma obrigação do presidente da Câmara ser frontal com os cidadãos e dizer: estas são as condições que tenho e dentro destas condições eu proponho-me fazer A, B ou C. Mas há muita coisa que se pode fazer em que não é preciso ir para o endividamento. A captação de investimento, a simplificação da vida para as empresas e a criação de emprego não precisa de dívida.

Tem noção de quanto é a dívida da Câmara da Covilhã?

Tenho a informação que a dívida aumentou neste mandato.

Já por diversas vezes falou da importância do setor privado sobretudo para a criação e emprego. Mas é também esse setor privado que se diz afrontado com as portagens na A23 e A25 quando tem de sair daqui para transportar mercadorias. Concorda com as portagens?

Para nos pronunciarmos sobre as portagens, temos que primeiro nos pronunciar sobre a construção das autoestradas e o estilo de politica adoptada que acha que é possível endividar hoje para pagar amanhã. Hoje estamos a pagar o preço dessa estratégia. Se assim não fosse este Governo também já tinha cumprido com aquilo que se comprometeu que era a abolição das portagens.

Mas sim, concordo que as portagens são um problema ao desenvolvimento das empresas, como é o aumento dos combustíveis, como são todas as dificuldades que o governo e até as autarquias colocam.

Se for eleito presidente da Câmara como vai ser a sua relação com as autarquias vizinhas?

Mas há algum outro tipo de relação que não seja de cooperação e colaboração? Acha que uma cidade só consegue sozinha criar tudo aquilo que é necessário para que a região se desenvolva? Quando fui secretário de Estado do Turismo nem sequer sabia a cor política dos presidentes das autarquias por onde passei. O que é relevante nas autarquias é o trabalho que se desenvolve para as populações.

Se não for eleito presidente e o CDS tiver votação para eleger um vereador assume esse cargo?

Claro que sim. Serei vereador.

Romão Vieira e Luís Nave