InícioOpiniãoViagem às terras do poeta

Viagem às terras do poeta

Manuel da Silva Ramos

Não é todos os dias que se inaugura em Portugal uma Casa da Poesia. E que se estreia uma carruagem da CP com o nome de um poeta. Porém, foi isso o que aconteceu no domingo dia 2 de Julho pois ele foi todo consagrado não só à homenagem ferroviária e terrestre a Eugénio de Andrade, grande poeta da nossa Beira, mas também à descoberta dos territórios da sua poesia.

Cheguei à Estação de Santa Apolónia às oito da manhã e fiquei logo surpreendidíssimo com a luminosa carruagem que integrava o intercidades que eu costumo apanhar em direcção à Covilhã. Lá estava o bardo com o seu boné de marinheiro e uma frase a todo o comprimento da carruagem anunciava já: « Aqui viaja pela Poesia… até ao Fundão, terra de Eugénio de Andrade».

Um orgulho desmesurado encheu-me o peito. Enfim, os poetas eram glorificados num país que se preocupa mais com futebol, cançonetas e praia! Integrei o meu grupo viajante que era um bom magote de trinta pessoas do Banco de Portugal, interessadas vivamente por cultura, e capitaneadas pelo grande passador de cultura que é Hélder Santos. E no interior da carruagem foi outro choque.

Por todo o lado, por todos os espaços, a palavra era do poeta. Havia poemas nos tampos reconvertíveis dos assentos individuais, nos corredores e até nas portas. Numa delas, lançava-se mesmo um convite expresso: « Vai de viagem…leia um poema».

Na estação do Oriente entraram dois jovens músicos com os seus grandes estojos pretos, e rapidamente lhes disse que deviam participar na homenagem ao poeta da Póvoa da Atalaia. Pedro Fernandes e Tiago Silva, uns prometedores violoncelistas, trouxeram-nos magnificamente Bach e foram fantásticos quando tocaram juntos a “ Suite para dois violoncelos” de David Popper.

A viagem, depois disto, continuou serena como o Tejo. O presidente da Câmara do Fundão Paulo Fernandes entrou na estação de Castelo Branco mais os representantes da CP para a assinatura de um protocolo. A carruagem voou até Castelo Novo, agora cheia com os convidados do Fundão que tinham vindo de autocarro.

Pela primeira vez vi um intercidades parar num apeadeiro por causa de um poeta! Descemos todos e tínhamos no cais um reconfortante antídoto contra o tórrido calor exterior: um chá fresquinho, deliciosos pastéis de cereja e cerejas boiando entre cubos de gelo.

Tomámos depois um autocarro em direcção à Póvoa da Atalaia. Lá estava a casa rasteira do poeta onde ele viveu enquanto menino e, em frente, o Jardim do “ Lugar da Casa” que foi agora requalificado. Paulo Fernandes, depois de descerrar a lápide, falou « de um espaço de fruição e de reflexão » . Aqui o visitante entre oliveiras, muros brancos com poemas de Eugénio e fotografias de mulheres de preto, pode entregar-se ao pensamento vático ou aos seus próprios pensamentos.

Por baixo de uma oliveira, no largo rente ao jardim, um grupo de mulheres de negro contemplava a cerimónia. A arte é sempre o espelho da vida! E Eugénio lembra-o muito bem num poema aqui exposto: «Começo este poema em Manhattan/ mas é das oliveiras de Virgílio e da Póvoa da Atalaia/ que vou falar.» Depois deste jardim simbólico, inaugurou-se o Caminho Eugénio de Andrade.

São 7 pontos de leitura obrigatórios. Os poemas remetem para o espaço vivido e construído poeticamente por Eugénio. É de realçar, nesta toponímia física e literária do poeta, a contribuição fundamental de Pedro Salvado. E avançámos para a inauguração da Casa da Poesia Eugénio de Andrade, situada numa antiga escola primária. Susana Salvado, a graciosa presidente da União das Juntas de Póvoa da Atalaia e Atalaia do Campo, exaltou o homenageado com palavras belíssimas.

Paulo Fernandes considerou-se aqui « um presidente de Câmara feliz» e concluiu:« Todos nós estamos mais felizes hoje com mais este património cultural.» Entrámos na Casa e foi um deslumbramento. Por todo o lado o poeta estava presente. Poemas volantes nas paredes, capas de livros, fotobiografia, voz do poeta, e até os seus sapatos cor de café com leite .

O projecto museográfico e a magnífica realização estiveram a cargo das Formas Efémeras, da Covilhã, que tiveram o apoio literário de Arnaldo Saraiva que também ofereceu para o espaço o seu filme “ Eugénio de Andrade : Coração Habitado”, que contém a última entrevista que se fez ao criador. E o dia cultural terminou com a apresentação do chocolate “ Eugénio de Andrade”, uma singular gulodice com um final a tangerina, que nos deixou na boca a poesia da vida durante muito tempo.

Por fim, Alcina Cerdeira, simpática vereadora da Cultura do Município do Fundão, agradeceu a todos os participantes deste dia especial e em particular ao grupo lisboeta. A Câmara do Fundão está de parabéns. Pois é com eventos assim que a cultura progride, se movimenta e exerce a sua nobre missão: homenagear vultos e preservar a memória assim como ligar pessoas, lugares e raízes.

O intercidades, vindo da minha querida Covilhã, chegou ao Fundão às 18 h47. O farnel que levávamos para o caminho era o ideal: caixas de cerejas, filhós e arroz doce – um desvelo da sempre atenciosa Dina, directora da biblioteca Eugénio de Andrade.

Logo que entrei na carruagem fiquei estupefacto. Regressávamos a Lisboa no meio de estudantes e passageiros ocasionais. A carruagem Eugénio de Andrade estava já a cumprir a sua missão de divulgação de um grande poeta.