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Ventos de mudança

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José Páscoa

AO CONTRÁRIO do que normalmente nos vendem, a famosa expressão “estagnação”, o fatal “marasmo”, os tempos são sempre de mudança. Pode é haver maior ou menor mudança, pode é a mudança ser feita com maior ou menor velocidade. Mas os tempos que correm são impulsionados por “ventos de mudança”, e é de esperar que grandes alterações se verifiquem.

Como dizia Érico Veríssimo “Quando os ventos de mudança sopram, umas pessoas levantam barreiras, outras constroem moinhos de vento”. Todos nós passamos o tempo a clamar por mudanças, as famosas “reformas” disto e daquilo, mas quando a mudança vem somos os primeiros a opor-nos a essa mudança. Quantos de nós enfrentam a mudança com otimismo e sentido de oportunidade. Muito pelo contrário, a mudança traz com ela o medo e teremos de avançar apesar do medo, de modo a não ficarmos seus reféns.

As mudanças que Trump já fez, e continua a fazer na América, alteram o modo como percecionamos as relações entre os países e o modo como, após a segunda guerra mundial, a Europa e a América se posicionaram face aos que fugiam dos seus madrastos países. Essas mudanças esquecem tudo o que estes dois continentes ganharam com a inclusão dessa diversidade. Muitos desses emigrantes, trabalhadores incansáveis, foram também grandes criadores nas artes, na tecnologia, e na economia. Nos mais variados períodos da história as fases de maior desenvolvimento sempre se deram com a miscigenação cultural.

Mas os ventos de mudança também se verificam mais perto de nós. A recente decisão do Brexit coloca Londres na rota do isolacionismo, em linha com a visão Trumpiana do mundo. Na semana passada a britânica Câmara dos Comuns confirmou a decisão do referendo, e deu poderes à Primeira-Ministra Theresa May para ativar o famoso artigo 50. A ação que desencadeará a saída do Reino Unido da União Europeia. Tal como na américa, também no Reino Unido falou a voz de um povo que cedeu ao medo. Nas grandes cinturas industriais inglesas, em acelerada desindustrialização para a Ásia, os cidadãos economicamente fragilizados preferiram a proteção do isolacionismo. Parafraseando o escritor, criam-se moinhos de vento e erguem-se muros.

Em França, depois das próximas eleições presidenciais, nada será como dantes. Os candidatos mais moderados enrolam-se em escândalos, pela má utilização de dinheiros públicos para fins pessoais. O Presidente François Hollande, outrora apresentado como o paladino salvador da Europa do bicho papão alemão, revelou-se uma desilusão que, de tão grande, impediu a sua recandidatura. Numa França em estagnação económica a esquerda propõe um rendimento mínimo de 750 euros para todos, e a direita de Marine Le Pen propõe um referendo para a saída da zona euro, e um imposto especial sobre contratos de trabalho com estrangeiros.

Enquanto isso a Alemanha, eterna farta valquíria, encerra o ano de 2016 com um superavit de 277 mil milhões de euros na balança comercial com o exterior. É o país com o maior excedente externo do mundo. Deixa a China em segundo lugar, a nível mundial, com um excedente de apenas 229 mil milhões de euros, e um rasto de inveja por todos os continentes.

Num outro mundo em mudança, nos anos 60, o líder inglês Harold Macmillan previa a independência das possessões africanas do Reino Unido declamando: o vento da mudança está a soprar por todo este continente, quer gostemos dele ou não, este ganhar de consciência nacional é um facto político.

Pouco poderíamos dizer de mais atual. Em Espanha também o partido Ciudadanos começa a seduzir o eleitorado nacionalista moderado, um mercado político de oportunidade. E situações bem mais vigorosas se observam na Polónia e noutros países da Europa Central, onde desde há alguns anos os governos nacionalistas ameaçam diariamente as regras europeias. Depois de várias décadas no caminho da União Europeia eis que a Europa caminha na direção do nacionalismo. Este é um facto político.
Portugal tem vivido alheado de todos estes desenvolvimentos, andamos entretidos com fait-divers mediáticos e hipnotizados com a tecnologia a tirar selfies. A grande maioria da população continua a sofrer com os estilhaços da troika, o país permanece centralista, e as elites recostam-se no cadeirão esperando a vinda rápida da aposentação.

As mudanças nunca avisam, e surgem sempre de uma forma mais rápida do que imaginamos. A moda nacionalista está aí, e quer gostemos ou não dela, é chegada a altura de começar a pensar como nos vamos posicionar neste mundo em mudança. Algures, num Portugal anestesiado, a raposa espreita. E, como sempre, se não formos nós a tomar as decisões alguém as tomará por nós.