InícioOpiniãoA velhice contada às crianças e aos adultos

A velhice contada às crianças e aos adultos

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Manuel da Silva Ramos

QUE o Teatro das Beiras se tenha voltado ultimamente para as escolas (secundária e básica), para atingir um público virgem que olha para o teatro como um território maravilhoso cheio de magia, de emoção e conhecimento, é uma aposta formidável e um complemento indispensável que só honra esta companhia teatral com um repertório rico e variado que enche um  passado de glória e encantamento.

Bendita pois a hora em que o Teatro das Beiras teve esta iniciativa que  traz ao palco da travessa da Trapa as escolas do concelho da Covilhã, em camionetas postas à disposição pela Câmara Municipal.

Ao descer a rampa que conduz ao teatro, a pequenada ferve de excitação  e pelo barulho das vozes cristalinas vê-se que há entusiamo no ar. Foi o que aconteceu na quinta-feira dia 3, em que tive a oportunidade de assistir a esta cena e ver nos olhos bem abertos das crianças toda a ansiedade do mundo. Vinham da cidade, do estabelecimento do Colégio das Freiras, mas podiam ter vindo de uma escola básica do Tortosendo ou de outra do Refúgio. E, contra toda a certeza, num espectáculo de 55 minutos, eles não buliram uma palha, nem falaram.

E porquê? Porque foi um momento perfeito, cativante e cheio de emoção. No final, eu próprio queria mais e fiquei, como os miúdos, preso à cadeira, enfim, ainda com toda a fascinação do que o teatro nos oferece quando ele é bem feito. E, na verdade, esta produção singular do Teatro das Beiras, prima pela visualidade em detrimento da palavra e por uma facto inusitado, uma grande particularidade :os dois actores em palco ( os imensos Bruno Landeira e Sónia Botelho, que indiscutivelmente estão entre os melhores de Portugal) e que quase que não falam nas suas prestações, são poderosos.

Este trabalho de humildade destes dois grandes intérpretes é uma das facetas desta peça que trata da velhice, um tema universal mas de difícil tratamento. Felizmente que aqui, nesta criação colectiva da equipa do Teatro das Beiras, se privilegiou o pathos, os ambientes e as presenças físicas degradadas dos idosos. Mas contemos a história.

Mariela ( Sónia Botelho quase irreconhecível) é uma idosa que vive pobremente na Rua da Alegria, retraída do mundo. Passa o tempo a ouvir rádio e as suas músicas preferidas. Tem um ódio de estimação pelo seu vizinho Manuel ( Fernando Landeira também quase irreconhecível na sua máscara agressiva de velho), um idoso que mora em frente dela.

Toda esta situação podia eternizar-se pela vida fora, se não fosse um jovem generoso (João Morgado modesto mas excelente músico) que passa todos os dias na rua alegre e que fomenta um encontro e um baile. Decora a rua como para uma festa, põe uma valsa a tocar e os dois idosos  dançam um com o outro e isso aproxima-os. Já não estão alheios e indiferentes mas próximos e amorosos.

O baile transforma-os e o velho já não pensa mais no seu passarinho que fugiu da gaiola e a idosa já não pensa mais em canções de amor. O afecto e o amor vão unir estes idosos recalcitrantes que sofriam de solidão. « Estar sozinho não é fácil» diz Manuel, numa das suas raras tiradas em que o tête-à-tête dos idosos parece um pôr-do-sol de Verão.

Mariela responde: « O coração precisa de sol para aquecer». Este espectáculo sobre a velhice é de uma grande justeza e o seu fim optimista leva-nos a acreditar na bondade humana que acaba por chegar. Não é todos dias que a velhice rima com alegria. Disfarçados em roupa avantajada e em máscaras grotescas, Fernando Landeira e Sónia Botelho são iguais a si próprios, grandes nas suas presenças e nos seus silêncios. O jovem João Morgado, sagaz manipulador das duas velhas marionetas, é , como dissemos, um hábil músico.

Marcos Ferreira fez uma encenação soberba toda em nuances e em tempos mortos e pôs em prática a famosa frase de Voltaire: « Os olhos são a memória dos velhos». Nisto foi muito apoiado pela feliz cenografia de Bruno Miguel cuja invenção das casas giratórias do cenário muito contribuiu para a eficácia e modernidade do espectáculo.

Eis uma peça ideal para as crianças e para os adultos de coração puro. Enquanto não vem o Marivaux, o prato forte deste ano do Teatro das Beiras, eis uma pequena pérola para saborear e, que, no Verão , em tournée pelas nossas vilas e aldeias pode fazer a felicidade de muita gente minorca ou graúda. Com esta 96ª produção, o Teatro das Beiras reforça o seu papel cultural de serviço público no interior do país.