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Um serrano com o alfabeto no bolso

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Manuel da Silva Ramos

HÁ UM serrano que tem o poder mágico de incendiar as letras, distorcê-las, fazê-las tremer de pavor, uni-las como a corrente das bicicletas ou duplicá-las como a via estreita onde circula um comboio, deitá-las para o lado do coração ou levá-las elegantemente à presença da simplicidade. Também tem o dom de sonorizar vogais como se elas constituíssem um perigo, clavejá-las como se fossem uma orquestra bem afinada, esburacá-las para elas se deixarem ouvir melhor ou pô-las retorcidas com o sopro do clarim ou fortes como se respirassem o ar puro das montanhas.

Ainda melhor: pode colocá-las em leque para suavizar o calor ou eriçá-las como um ouriço-cacheiro. O fragoso faz isto tudo. O seu nome é Jorge dos Reis e nasceu há 45 anos em Unhais da Serra. Este criador espantoso sempre com os olhos em ebulição, um riso franco e uma juvenilidade robusta de homem optimista, acredita que a tipografia pode salvar o mundo.

E para isso trabalha ardentemente em três campos: no magistério ( ensinando a alunos o modo de compor livros, na Faculdade de Belas Artes de Lisboa), no seu atelier de design gráfico e finalmente na vertente de artista criativo. Raros são os criadores que falam do seu trabalho artístico com a fulgurância e a erudição do Jorge dos Reis.

Ele conta-nos isso tudo mais o seu périplo de vida, numa tarde iluminada pelo seu sorriso, na Casa do Alentejo, em Lisboa, e que rapidamente se converteu num voo até às origens onde tudo começou. E frisamos bem, tudo começou, pois os pais do Jorge ,como professores primários, ajudaram muitos alunos a tomar consciência das letras. E o Jorge, por perto, não fez mais que incorporar e materializar esse sonho familiar da procura constante da ortografia e do alfabeto .

Um sonho que se prossegue ainda nos nossos dias. Muito novo andou na Campos Melo da Covilhã, depois foi para a António Arroio em Lisboa e seguidamente ingressou na Faculdade de Belas Artes. Enquanto frequentava o quarto ano, foi trabalhar para a tipografia Freitas Brito (com caracteres móveis de chumbo) na rua do Ferragil, no Cais do Sodré.

Aí, em permanente contacto com os caracteres móveis, ficou influenciado para o resto da vida. Foi o seu primeiro acto crucial. Podemos dizer que isto constituiu a sua formação e a sua escola. Começou a sua vida profissional como colaborador do inglês Robin Fior e durante dois anos trabalhou no seu atelier. Foi o segundo momento importante da sua vida. O terceiro foi o encontro com Alan Kitching, o seu professor no Royal College of Arts em Londres, que o revigorou e o levou a acreditar definitivamente nos caracteres de chumbo móveis.

Jorge dos Reis que corre o mundo a ensinar as possibilidades gráficas do alfabeto e a divina tipografia, que vive entre o local e o global, costuma dizer a quem se aproxima dele:« Estou sempre de partida e de regresso à Serra da Estrela, à minha vila: Unhais da Serra.» É preciso conhecer o seu livro “ Da Epigrafia à Caligrafia, da Tipografia à Poesia” e descobrir por exemplo o magnífico grafismo anunciando uma capeia na Aldeia do Bispo, no Sabugal, ou dar com a esplêndida fonte montanhês que Jorge dos Reis inventou para o jornal Terras da Beira .

É preciso mergulhar no seu belo livro “ Seis Alfabetos para Paul Klee” para ficarmos surpreendidíssimos com um alfabeto ligado intimamente à pedra ou um alfabeto carcomido. É preciso abrir o todo recente livro amarelo “ Fragas Falantes”, com vinte tipos de letra criados em vinte anos, uma retrospectiva do trabalho criativo gráfico do artista beirão, para apreciarmos a sua imaginação fascinante .

Este livro, editado pela Câmara Municipal da Covilhã em parceria com a Universidade da Beira Interior, deu azo a uma exposição na editora Abysmo, na rua da Horta Seca, em Lisboa. É uma oportunidade rara para ver as fontes incrivelmente poéticas de Jorge Reis e descobrir um artista extremamente original. E que, ainda por cima, é da nossa terra.