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Um prémio mais que merecido

Manuel da Silva Ramos

No seu livro “Os Meus Prémios”, o escritor Thomas Bernhard conta que muitas vezes levava a sua tia septuagenária quando ia receber um prémio literário para tentar adocicar a situação ou então lançava comentários desabridos contra os presentes que lhe entregavam os prémios. Garcia Marquez, quando recebeu o Nobel em 1982, apareceu em liqui-liqui, o traje tradicional das planuras da Colômbia.

Fernando Paulouro Neves no passado dia 8, na Guarda, na sessão de entrega do Prémio Eduardo Lourenço, foi com a sua proverbial e lendária modéstia e a tarde iluminou-se. E acrescentou que era uma honra e uma gratidão receber tal prémio. E depois, já quase no final da cerimónia, ainda reforçou mais a sua posição: « Agradeço as palavras amigas que foram excessivas.»

Quanto a nós, que sempre admirámos o homem e o escritor, o jornalista e o amigo, a entrega deste prémio prestigioso ao Fernando Paulouro é de uma justiça exemplar. Ele é a prova cabal de que a sua grande envergadura intelectual e as suas posições éticas e cidadãs foram reconhecidas na sua totalidade.

Totalidade que engloba o seu mester de jornalista, de escritor, dramaturgo, ensaísta e passador divulgador de muitos criadores beirões. Fernando Paulouro, agora mais descontraído e liberto emocionalmente, vive actualmente na Covilhã e vai poder consagrar-se, com a pertinácia que o caracteriza, à feitura de uma obra que ele traz em si há muito tempo, já com este prémio reconfortante no coração.

Nesta tarde egitaniense, as palavras de elogio couberam a Arnaldo Saraiva. Disse o notável ensaísta que « o prémio nunca foi tão bem atribuído. E que o Fernando Paulouro tem méritos que alguns do anteriores premiados não tinham.»E falou da obra multifacetada de Paulouro, assim como das sessenta e duas referências que faz, por exemplo, a Eduardo Lourenço, nos seus livros de crónicas. Por seu turno, o patrono do prémio, discorreu brilhantemente e na sua maneira tão peculiar a que nos habituou. Revelou « a aptitude filosófica natural» de Fernando Paulouro e depois fez uma profunda reflexão sobre o homem, o intelectual e a comunidade.

Citando Montaigne, Eduardo Lourenço disse que «todo o homem pertence à condição humana» e que « a cultura não está em círculos privilegiados.» E confessou humildemente o autor de “ Heterodoxias” que «quando estava lá fora no estrangeiro, ao ler o Fernando Paulouro, era como se estivesse em casa.» E mais: «… O Fernando Paulouro é um escritor da Beira e ele olha para a comunidade que vive perto de nós.» Coube ao laureado terminar a sessão lendo o seu texto intitulado “ Honra e gratidão nos olhos das palavras”. Aí salientou «os tempos difíceis de um quotidiano triste e cinzento onde a liberdade é equação cada vez mais difícil de resolver.

Daí as palavras e o seu combate» Há duas palavras que têm uma importância capital para Fernando Paulouro nestes tempos de alienação e cheio de campeões de negócios: «Liberdade e Esperança.» É de repetir sempre. As obras literárias do antigo director do Jornal do Fundão destacam-se pela sua viva originalidade, pela sua âncora beirã e pela sua matriz de vida palpitante onde o humor salpica por todos os lados. “ Os Fantasmas não fazem a Barba” foi o melhor livro de contos que se publicou em Portugal em 2003. No ensaio “ A Casa Materna da Poesia – sobre Eugénio de Andrade” escolhe caminhos inéditos e cheios de perspicácia e alimentados pela literatura comparada para “ narrar” um poeta que lhe foi próximo pela amizade e pelo afecto.

O romance “ Fellini na Praça Velha” é um tour de force extraordinário sobre a cidade do Fundão e os seus habitantes durante a segunda metade do século XX e dá-nos aí uma lição de história e de resistência pelo riso. E finalmente nos seus dois tomos de “ Crónicas do País Relativo – Portugal Minha Questão” ele afirma-se, naturalmente, como o melhor jornalista português.

Não pudemos deixar partir os muitos amigos presentes sem os consultarmos sobre a importância deste prémio. Francisco Elias declarou:«Prémio muito bem atribuído. Ele escreve melhor que nunca, está muito melhor na escrita.» Nelson Oliveira Marmelo e Silva: «Este prémio consagra uma obra e uma vida dedicadas aos problemas não só regionais mas também transfronteiriços, por isso é de uma inteira justiça e oportunidade.»

Rui Jacinto : «É o cronista da Beira Interior mas a sua invulgar cultura literária, histórica e política conferem ao seu olhar uma abrangência cosmopolita e globalizante.» Américo Rodrigues: «Prémio justíssimo. É a primeira vez que o prémio é atribuído a um autor da região. Para além de escritor, como jornalista foi sempre muito arguto, interventivo e muito crítico, como deve ser o dever do jornalista que trabalha no interior do país. É uma referência ética.»

Questionámos por fim Eduardo Lourenço e ele disse-nos: «A família a que ele pertence foi realmente uma presença cultural autêntica num meio que por vezes lhe era hostil. O Jornal do Fundão teve uma importância no espaço da língua portuguesa e como herdeiro do seu tio levou a nave até aos limites do mundo que falava português.»E por fim o feliz contemplado não esteve com delongas: « É uma honra muito grande porque o nome de Eduardo Lourenço confunde-se com a cultura portuguesa.» Parabéns, Fernando! E ficamos à espera do romance histórico que trazes no computador, ancorado mais uma vez na Beira!