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Um intelectual renasce

Manuel da Silva Ramos

FOI no lugar de sua casa que Eugénio de Andrade recebeu no dia 19, dia do seu aniversário, o escritor Fernando Paulouro. E isto no quadro da  apresentação da reedição refundida de “A Materna Casa de Poesia”, um dos melhores livros que um dia se escreveram sobre o poeta da Póvoa da Atalaia, e onde Fernando Paulouro conseguiu penetrar muito longe nos segredos do poeta ( que trazia dentro de si  desde a infância), devido ao seu contacto pessoal com ele.

A  noite estava particularmente fria mas isso não demoveu o entusiasmo dos numerosos amigos e conhecidos que afluíram em grande número à Biblioteca Municipal. Paulo Fernandes, presidente do Município, recordou o poeta homenageado que lhe disse certa vez (a propósito da Casa da Eira, a casa onde viveu e a casa que o lembraria) que fizesse mas «que não gostava de coisas  pindéricas». Arnaldo Saraiva falou, como é seu hábito, maravilhosamente bem e elogiou o livro ensaístico, longe do entediante discurso universitário.

Na verdade, e depois de muitos anos consagrados à compilação de artigos publicados no “Jornal do Fundão”, onde foi director, e treze anos depois do admirável livro de contos “Os Fantasmas não Fazem a Barba”, Fernando Paulouro renasce e desta vez para nos dizer que está bem vivo, feliz e em plena maturidade criativa. Não nos enganaremos muito se afirmarmos que os próximos anos serão decisivos para mostrar o seu grande talento, a sua acutilante inteligência crítica e o seu maravilhoso humor feroz. E não nos  espanta nada, que com tudo isto e mais o seu natural sentido de humanidade aureolado  de uma imensa cultura, que ele se alcandore entre os melhores escritores portugueses.

Eduardo Lourenço bem viu as grandes qualidades literárias de Fernando Paulouro quando falou , a propósito dos seus contos, de «Carnaval beirão» e «truculência da visão e naturalismo da narrativa com fugas líricas». E Baptista-Bastos, em 2012, vai mais longe ao afirmar que estamos perante  “um intelectual que manuseia diuturno a poesia que profetiza e a prosa que sonha e faz sonhar”. Os próximos anos serão paulourianos e nós regozijamo-nos já com isso.

É  uma evidência claríssima dizer que os escritores funcionam por etapas, períodos, paixões. Recordemos Diderot, Stendhal, Henry Miller, etc. A leveza actual de Fernando Paulouro faz-me lembrar esses atletas que se preparam para grandes feitos respirando antecipadamente os ares das grandes montanhas. Eis para já o programa para os próximos tempos, em que ele explodirá de êxitos para gáudio dos seus inúmeros admiradores. O seu romance “Fellini na Praça Velha” será o primeiro acto deste renascimento. É um romance memorialista e pícaro e, no dizer do seu autor, «um contributo para a memória colectiva».

Por esta ficção perpassam histórias inventadas, destinos e  figuras que existiram, sempre com o Fundão em pano de fundo. Eu, que já li o primeiro jacto deste romance espantoso, posso afirmar que embora ele vibre com uma trama local tem uma dimensão universal. Na continuidade dos seus dois livros “Crónica do País Relativo – Portugal, Minha Questão”, Fernando Paulouro vai publicar brevemente uma selecção de crónicas do seu blogue “Notícias do Bloqueio”, um blogue que teve até agora 510 000 visualizações. Outra realização de luxo será a parceria com o cenógrafo e pintor José Manuel Castanheira. Este pintou quadros baseando-se no livro de Jaime Lopes Dias “Lendas da Beira” e Fernando Paulouro escreve os textos relativos a cada pintura e cada lenda.

Outro projecto em acabamento é um livro de poesia. Por fim, o escritor renascido estará a partir de Abril no Brasil para investigar uma figura fundanense que acabou queimada num auto-de-fé da Inquisição. É um romance passado em Portugal e no Brasil e sobre o qual ele deposita muitas esperanças. «A boa prosa é como a vidraça de uma janela» escreveu George Orwell. Fernando Paulouro sempre nos deu essa visão límpida e agora com estes novos trabalhos criativos essa visão será ainda mais brilhante.

No contacto com Eugénio de Andrade, e principalmente no ano de 1990 e depois em 1992, o ex-director do “Jornal do Fundão” entrou no território dos segredos de infância  do poeta. Agora amigos, conhecidos e admiradores de Fernando Paulouro  descobrirão outro segredo bem guardado que exigia confirmação: dentro do maior jornalista português existia escondido um grande escritor, um grande ficcionista. Eu sempre o soube. O ano de 2017 será pois o ano Fernando Paulouro. Para já, ele estará esta quinta-feira, dia 2 de Fevereiro, às 18 horas, no Museu Tavares Proença Jr, em Castelo Branco, a contar a odisseia lírica do poeta da Póvoa da Atalaia com a sua grande sensibilidade de homem  bom.