Um elogio

Nuno Francisco

Um dos grandes méritos da Unidade de Missão para a Valorização do Interior  (UMVI)  foi o de ter colocado o país a olhar para o Interior, quando muitos ainda tentam erguer o argumento de que num país tão pequeno – que da capitalà fronteira com Espanha não terá muito mais do que 300 quilómetros a percorrer – não faz qualquer sentido falar em interioridade. O que se amiúde se ignora é que a “interioridade” não se mede  em  quilómetros. Não se  é mais ou menos Interior em função da maior ou da menor distância a que se está de Lisboa.

A interioridade é uma complexa rede de intrincados fatores que levaram à instituição de poderosos fluxos repulsivos que levam as regiões a entrar numa espiral de perda de população, de atratividade, de captação de recursos públicos e privados e até de meras vontades. Falar de interioridade em vastos territórios a 200 ou menos quilómetros do maior polo económico do país não só é possível, como é uma  evidência. A razão? É que a tal interioridade não se  mede pela distância, mas, sim, pelos erros, pela inércia, pela soma das  oportunidades perdidas e negadas. Só não se apercebe deste gritante contraste territorial dentro do tal  “país tão pequeno” quem nem sequer ainda se  deu ao trabalho de tentar entender o que se passa para além do olhar superficial.

O difícil trabalho que tem vindo a ser  feito pela professora Helena Freitas (entrevistada esta semana peloJornal doFundão)  e pelo engenheiro João Paulo Catarino, homem que liderou a autarquia de Proença-a-Nova durante vários mandatos, onde sempre deu sinais de conhecer bem as especificidades desta complexa realidade e, sobretudo, deu mostras consistentes de não se resignar a ela, merece um elogio pelo relevante facto de que, finalmente, ter sido constituída uma unidade de ação com base numa estratégia transversal a vários ministérios. O que decorre da criação da UMVI é o reconhecer de um grave problema que vive bem para lá das palavras de comício eleitoral, que enchem de comiseração quem as ouve, mas que o vento trata de as levar e arrumar no baú das inanidades.

A existência da UMVI  é o assumir, por parte de um Governo, de que o território está profundamente desequilibrado e que necessita, com urgência, de se  corrigir a fórmula que nos trouxe até aqui, a uma Beira Interior onde mais de metade dos 25 municípios que a constituem têm, hoje, menos de dez mil eleitores. Nenhuma demanda se pode iniciar sem a assunção plena do cenário que se quer  enfrentar. E foi isso que se fez. Mas  o problema das demandas, em política, é que estas só poderão mostrar resultados bem para além da espuma mediática dos dias, dos títulos  dos jornais e até das legislaturas. E há sempre o  risco desses resultados nem sequer aparecerem. De resto, há a curiosidade de se saber o que acontecerá à UMVI após esta legislatura.

Travar um processo desta magnitude exige persistência, vontade política férrea e inabalável paciência. Ao fim de  meses de trabalho da UMVI, algo estará feito, mas é  prematuro pedir contas definitivas. E só quem não tem conhecimento das dinâmicas que se desenvolvem neste território é que terá a ousadia de pensar o contrário. Até porque, por aqui, temos cada vez mais  dificuldade em acreditar em fábulas e em curas miraculosas.