InícioOpiniãoUm cronista destemido

Um cronista destemido

Manuel da Silva Ramos

NOS tempos que correm, em que reina o narcisismo mais patético e a indiferença mais doentia, a presença de alguém atento como António Fernandes, cronista da nossa Beira, reconforta-nos e deixa-nos tranquilos. É que assim estamos seguros que os mais pequenos acontecimentos estão ao alcance da nossa mão. Que os homens mais dilacerados pela engrenagem de uma sociedade do lucro serão defendidos. Que os pobres de espírito serão falados. E que os generosos e os solidários terão ao menos os louros da glória de um dia. Não é todos os dias que nasce um cronista destemido.

Com a publicação do seu livro “ O nosso Homem”, António Fernandes afirma-se de imediato como um guardião sensível da vida beirã, na sua totalidade e singularidade. Mas antes de falarmos desta obra que é um mosaico de histórias e de gentes bem reais, tiremos o nosso homem da cartola.

Filho de um homem esforçado de sete ofícios, que passou as passas do Algarve e que foi sempre admirado pela sua compostura de justo, tanto na Bismula onde ensinou o povo inculto a ler como em Setúbal onde terminou a sua carreira de operário como trabalhador da Portucel, António é o mais velho de dez irmãos. Tomando o seu pai como modelo (genética oblige!), não é espanto vê-lo, no tempo glorioso do seu amadurecimento, na cadeia de Castelo Branco. Aí vai permanecer 26 anos como director. Este passo, na sua carreira profissional, foi decisivo para a eclosão da sua personalidade vivificante pois ao lidar com presos ( suas histórias e seus destinos) ele terá diante dos olhos o diamante bruto da literatura.

A tentação era muita de dar o salto e passar à narração dos homens e das suas vivências e foi o que aconteceu, por volta do ano de 2010, em que o faroleiro de Aldeia de Joanes surge como cronista já com uma maturidade artística incomum. A sensibilidade de António Fernandes é lendária. A sua generosidade também. Lembro-me de ele me ter levado pelo trilho dos contrabandistas da raia (eu fazia uma investigação para o meu romance “ Três Vidas ao Espelho”) e de eu ter sido guiado durante um dia inteiro, da Bismula até Almedilha em Espanha, pelo entusiasmo deste homem jovial.

É por tudo isto que nada me incomoda quando António Fernandes fala de religião. E se professa católico nas suas crónicas. Não é proselitismo, mas uma maneira de estar no mundo. E nisto ele está, talvez sem o saber, muito próximo do que dizia Chesterton, esse extraordinário escritor inglês, um dos meus preferidos em literatura. Há duas frases do imortal autor do Padre Brown que assentam como uma luva no nosso cronista fogoso e alegre.

A primeira é:« Somente a ortodoxia cristã faz o homem feliz: é como os muros postos ao redor de um precipício onde pode brincar uma porção de crianças,» A outra é mais directa: « A alegria é o gigantesco segredo do cristão.»Na verdade quem conhece o António Fernandes sabe que ele está sempre próximo do riso ou da fúria contra as injustiças.

O que ele quer no fundo, com a sua pujança justiceira, é o mesmo que afixa Chesterton numa das suas obras:« O que queremos é uma religião que esteja certa quando estamos errados». O cristianismo de Chesterton, diz o seu grande admirador Borges, é orgânico e o de Fernandes, digo eu, é hegemónico. O católico Fernandes sabe criticar padres incompetentes mas também exaltar-se quando vê o Papa Francisco a lavar os pés de um simples. A sua divisa parece-me ser a bondade ecuménica dirigida a todos os homens. Homens que são o poderoso material das suas narrativas. Basta ler as seguintes crónicas para se ver como se cose bem o fato do nosso cronista: “ Bismula- O Teatro e os seus Actores” ( onde evoca a figura tutelar e magnífica do pai ), “ O Capador de Porcos” ( que é um elogio ao senhor Geraldes que tinha uma navalha redonda de bico superior para capar os suínos). “ Estórias de um Aprendiz de Burlão”( um pequeno ladrão confessa as suas aventuras ao nosso cronista numa rua de Castelo Branco).

Não se podem perder também essas duas pérolas de riso que são “ O Comício”( crítica aos políticos que pagam jantares em tempo de eleições) e “ Ida às Urgências”( sátira aos médicos espanhóis que vêm dormir para as urgências nocturnas dos hospitais portugueses). E não podemos deixar de salientar essa maravilhosa crónica que é “ O Senhor Adeus”, uma homenagem emotiva e saudosa ao solitário citadino que na Praça do Saldanha em Lisboa dizia adeus aos carros. A escrita de António Fernandes não pode parar. Directa, factual, aderente e cheia de vida, ela foi publicada pela editora beirã A 23 e foi apresentada, diante de uma plateia numerosa com cerca de duzentas pessoas, no dia 19, em Aldeia de Joanes, terra do nosso Homem.