InícioOpiniãoO Trump em cada um de nós

O Trump em cada um de nós

Paulo Duarte

Politicamente correto. Este é o paradigma dominante que rege a ação de qualquer responsável de campanha ou assessor de imagem. Em bom rigor, este é também o paradigma que dirige a nossa interação social. Procuramos ser simpáticos, corretos, diplomáticos, mesmo quando discordamos das ideias de outros, porque esse é o comportamento (hipócrita) que se aprecia que cada um assuma nas relações interpessoais. O confronto de ideias, a discordância e o conflito salutar de opiniões não é bem visto. Na prática é o estás comigo ou contra mim.

Assistimos a um extremar das posições, como se as pessoas ou os partidos fossem inimigos em vez de adversários. Em permanente guerra, cada um entrincheirado no seu campo, atiram aterrados, sem regra nem freio sobre tudo e todos, com perfeito desprezo pela moral, pela ética e pelo respeito que exigem para cada um dos seus, mas que sem pudor desprezam para os outros.

Este é um modelo reprovável que instiga à discórdia, ao confronto, à desordem, ao insulto e, no extremo, à intimidação e ao medo. Um vale tudo cobarde que vai da calúnia à agressão culminando na intimidação e no medo. Comportamentos que, ultrapassando o limite do politicamente correto, colocam em causa a moral e a ética que devem reger o comportamento em sociedade.

Cientes do potencial das ideias e emoções reprimidas, vários candidatos em campanhas eleitorais recentes têm procurado tirar partido do poder da faceta trumpista presente em cada eleitor. O lado insubordinado, continuamente fiscalizado e refreado pelo politicamente correto, é assim aproveitado pelos estrategas eleitorais para capitalizarem simpatias para as ambições dos seus candidatos. É um fenómeno global.

Em Portugal tivemos o Marinho e Pinto, no Reino Unido tiveram o Boris Johnson e o Nigel Farage a propósito do BREXIT, a França tem a indomável Marine Le Pen, o Brasil vive a ferro e fogo com Michel Temer e, claro, os Estados Unidos têm o ingovernável Donald Trump.

Estes são apenas alguns exemplos (maus) do modelo do político atual que viola o princípio básico do sistema que lhe permite governar e pelo qual é eleito: a confiança. A crença e a garantia de que no desempenho do seu papel de ocupar-se da causa pública vai fazer o melhor ao seu alcance pela Polis, cumprindo o contrato que assinou com os eleitores quando se candidatou e que é depois ratificado na eleição. Na prática tudo aquilo que é contrário aos princípios capitais do processo democrático.

Sinal evidente desta forma troglodita de fazer política é a multiplicação e o sucesso dos blogues em períodos pré-eleitorais. A coberto do confortável manto do anonimato os seus autores ativam o Trump latente em cada eleitor aguçando o seu voraz apetite trumpolesco. E lá vão muitos moralistas de bancada e interesseiros ambiciosos com a cobardia convenientemente acautelada pelo anonimato propagando fábulas, intrigas e ilusões e distribuindo insultos, tabefes e ferroadas a seu belo prazer, sem consequências.

Serve esta argumentação para defender que não deveria haver conflito no debate político? Não. Obviamente que não. Serve sim para enfatizar a necessidade de mudar os comportamentos e a forma de estar e de fazer política. Entre a hipocrisia do “politicamente correto” e o trumpismo dos blogues e outros meios incendiários que propagam suspeitas, incentivam à maledicência e ao insulto sem discrição, em nome de vaidades, egos e ambições (des)medidas, quero crer que há espaço para o debate, a disputa salutar e o desacordo edificante que constitui a base da criatividade que a sociedade necessita tomar como base e exemplo para a construção de uma polis melhor e de uma sociedade mais digna, sem trumpelarias.

pduarte@gmail.com