InícioOpiniãoTerritório: Contabilidade ou solidariedade?

Território: Contabilidade ou solidariedade?

Nuno Francisco

NÃO deixa de ser interessante o desafio que o deputado socialista SantinhoPacheco, eleito pelo círculo eleitoral da Guarda, fez à administração da Caixa Geral de Depósitos: trocar a condenada agência de Almeida pela que existe na Assembleia da República.

Este episódio é relevante para nós, que ainda por aqui andamos, não apenas pela abnegada intenção da proposta, mas porque ela nos dá, sobretudo, a exata noção do estado a que chegámos. O encerramento de uma agência do banco público numa sede de concelho da Beira Interior – sim, é já aí que vamos! – que, alegadamente, há cinco anos apresenta prejuízos é o resultado de quem se pôs mesmo a jeito para subir ao altar do sacrifício juntando-se às outras agências que darão a vida pelos compromissos impostos por um processo de recapitalização do banco. Uma necessidade para a qual as agências da Beira Interior nada terão contribuído.

Eis, então, duas características para a agência ser abatida ao contingente: Dá prejuízo e está no Interior. Já vimos isto em algum lado, não vimos? Tudo o resto que se possa dizer ou escrever para mitigar esta realidade é a reposição de uma velha ladainha que nos foi apresentada sob diversas formas e formatos ao longo de décadas. Escusam é de nos tomar por tolos, como no caso de Silvares, onde os clientes da agência receberam uma carta onde se dava a entender que tudo isto era para melhorar o serviço prestado e que a agência doFundão lá estaria de braços abertos para os receber.

Na edição de terça-feira do Público, Santinho Pacheco justificou a proposta apresentada: “No Interior não podemos continuar a aceitar que encerramentos e reformas de entidades e serviços públicos tenham sempre como pressuposto o baixo número de utentes ou a falta de lucro”.

Esta foi sempre a questão fundamental para o Interior, e é na resolução desta equação que se revelará a forma como se olha para um território desprotegido e envolto numa espiral repulsiva, que o encerramento de serviços apenas adensa. Quem quer instalar uma empresa ou fixar uma família numa geografia onde as escolas, os postos de saúde, os transportes públicos não existem ou estão inoperacionais?

Se os critérios a aplicar em territórios severamente despovoados se resumirem à rentabilidade da coisa pública em função dos residentes e da capacidade financeira dos mesmos, então o melhor é mesmo aceitarmos que, mais cedo do que tarde, largas faixas deste território não terão serviços básicos num raio de muitos quilómetros.

Quando ouvimos falar em reformas de serviços noInterior, sabemos, por experiência própria, o que vem logo a seguir: os encerramentos, os ajustes em função do declínio demográfico. Quem ainda não se deu ao trabalho, pode percorrer a região fora da malha urbana Guarda – Covilhã – Fundão – Castelo Branco definida pela A23 e aí só não verá a evidência se não quiser : Hoje, mais de metade dos municípios da Beira Interior conta com menos de dez mil eleitores.

Por isso é que este território não pode ser gerido em função da mera rentabilidade, mas sim da solidariedade territorial. No fundo, o apelo é o de se resistir à tentação de dar renovados sinais de desistência que tantas “reformas”, no passado, alimentaram. Só se pede isto: a firme solidariedade em vez da mera contabilidade.