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Terra que chora

Nuno Francisco

NÃO há meias palavras para definir o que se passa nas florestas nacionais. Para além de ser o tempo de combate aos incêndios e de vigilância apertada, é também o tempo do Estado de Direito se impor definitivamente nesta questão, sem a mínima hesitação em procurar, identificar e levar perante a justiça todos os responsáveis por esta loucura descontrolada que está a destruir parte do país. Já poucos acreditam em coincidências e acasos, quando se lidam com fogos sistematicamente ateados nos mesmos locais, em fogos ateados quase simultaneamente e em fogos postos à noite. Os presidentes das Câmaras do Fundão e da Covilhã, entre outros por este país em chamas, já foram bastante claros em relação ao que se passou nos seus concelhos: É muito difícil acreditar no acaso nesta obscena sucessão de “coincidências” que dizimaram a floresta destes e de outros territórios.

Entretanto este Interior queimado e descrente chora, rodeado quase diariamente por fogo, fumo, sirenes a uivar, com aviões, helicópteros e viaturas de combate a incêndios em contínuo socorro.Esta terra verte lágrimas de impotência enquanto as chamas galgam as serranias, colocando em perigo os haveres de uma vida, destruindo, no caminho, a fauna e a flora. Esta terra chora enquanto se compromete o futuro por décadas e que pouco deixará a tantos que, mais uma vez, serão obrigados a recomeçar do nada ou do quase nada. O fogo deixa duras marcas na alma que demorarão muito a apagar. Deixa duras cicatrizes na paisagem que reflete o desânimo de quem se vê, novamente, despojado da esperança.

Esta terra chora porque há décadas que está condenada a esta estranha rotina de destruição. Olhando, agora, para estes lugares que se estendem ao longo da Autoestrada da Beira Interior tem-se a clara perceção de que uma sucessão destes golpes poderá levar a que num dia não muito distante o pouco ânimo das gentes que ainda por aqui resistem esmoreça, seja por cansaço, seja porque a desesperança, depois de tantas contrariedades e sofrimento, finalmente tomou conta de todos os corações. Neste Interior que chora, despovoado, empobrecido, esquecido, pasto de incêndios gigantescos, escrutinar o futuro é, hoje, uma tarefa árdua. E para quem olha de fora, longe deste doentio cenário de incêndios após incêndios, que vontade terá para investir, para se radicar nesta geografia em sofrimento, sabendo que mais cedo ou mais tarde aquilo que irá construir poderá ser destruído num piscar de olhos? Quem acode a um território que ocupa um espaço mediático quase nulo e quando se dá honras de destaque é quase sempre por razões destas? Quem para este choro da terra e este desânimo grassante? Quem, de uma vez por todas, diz um consequente “Basta”?

Hoje, por entre tanta desolação, a única certeza que temos é a da existência de um imperativo moral e ético, a partir do qual teremos que encontrar as forças para nos reerguermos. E o imperativo é este: Devemos – a nós e, sobretudo, às gerações que nos sucederão – fazer calar o choro destas terras. Na árdua tarefa de lançar os alicerces do nosso futuro coletivo, o Jornal do Fundão estará sempre na primeira linha. Porque nós não acreditamos, tal como tantos de vós, caros leitores e leitoras, que tudo isto seja uma inevitabilidade. Não é. Basta!