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Teatro subversivo e ético

Manuel da Silva Ramos

BENDITA a hora em que o Teatro das Beiras resolveu apresentar “ A Ilha dos Escravos” de Marivaux. É que estamos num tempo em que as reivindicações sociais desaceleraram e em que os patrões, chefes e outros poderosos estão cada vez mais firmes e assertivos nos seus postos. Quanto aos operários, empregados e outros servidores que trabalham para aqueles, neles o aconchego é total, sem protestos ou reclamações de direitos e garantias sociais.

O teatro pode e deve abordar todos os assuntos. É a sua grande dimensão artística e humana. Ao representar uma peça em que os amos se tornam criados e os criados se tornam amos por um certo tempo, o Teatro das Beiras vem dizer-nos que nos devemos questionar sobre a incrível desigualdade dos homens que forja a injustiça e a tirania. 

Mas ele também nos aponta o caminho redentor da gratidão, da bondade e do coração que pode amansar as coisas. Estará a Humanidade pronta para uma troca de papéis, nem que seja momentânea? É o desafio desta peça de Marivaux que no século XX pode ter ligações com a peça de Jean Genet “ Les Bonnes” e o filme de Joseph Losey “ The Servant”. Mas contemos a peça de Marivaux, situada na Antiguidade. Ificrato (Roberto Jácome, sóbrio e eficaz no seu papel de amo) e Eufrosina (Sílvia Morais, brilhante num papel de recatada tímida) é um casal de atenienses que naufragou numa ilha com os seus criados, Arlequim e Cleanta. Esta ilha tem a particularidade de ser governada por escravos que se revoltaram contra os seus amos em Atenas e que vieram instalar-se aqui. Nesse primeiro tempo , os pais dos actuais insulares, irados contra a crueldade dos amos, matavam-nos selvaticamente.

Depois, mais tarde, a lei abrandou e os insulares infligiam só três anos de escravidão e, se os novos amos estivessem contentes com os progressos efectuados pelos novos criados , eram despedidos da ilha. É o momento desta peça. Trivelino ( Fernando Landeira, formidável actor camaleónico, num papel de subtileza autoritária e de compreensão infinita) é o chefe da ilha e vai impor pois a habitual mudança de papéis. Arlequim (brilhante Miguel Telmo, num histrionismo de grande qualidade) troca pois naturalmente de roupa com o seu amo Ificrato e Cleanta (Margarida Calaveiras, nova aquisição profissional do Teatro das Beiras, esplêndida num papel de grande versatilidade e empenho) faz o mesmo com a sua ama Eufrosina.

«Nós somos gente de bem que só vos quer instruir», diz Trivelino, o chefe da ilha dos escravos a Eufrosina, a teimosa que claudicará. O dias passam e dá-se enfim a transformação esperada. Arlequim arrepende-se dos seus disparates e devolve as suas roupas de amo ao seu amo verdadeiro e pede a Eufrosina e a Ificrato para se arrependerem também. Mais custosa será a posição de Cleanta mas por fim também anuirá. É altura de Trivelino concluir: «Encantais-me, castigámos os vossos erros. Daqui a dois dias partireis em direcção a Atenas. Este é o dia mais proveitoso da vossa vida» Amos e criados partem pois « recuperados» e «transformados». Esta peça de Pierre Carlet, dito de Marivaux, foi escrita em 1725, tinha o autor trinta e sete anos. Este polígrafo por necessidade( sofreu uma bancarrota e teve de recorrer à literatura para se poder alimentar) foi romancista ( “ A vida de Marianne” e “ O Camponês novo-rico”), ensaísta e dramaturgo, tendo escrito perto de quarenta peças.

O seu teatro oferece as surpresas, ilusões e manhas do amor. Nos dias de hoje, Marivaux é tido, não como um autor cheio de afectação, mas como um dramaturgo cheio de intensidade dramática e com uma força cómica muito particular. Prova-o esta “Ilha dos Escravos”, traduzida pelo grande encenador Luis Miguel Cintra e em cena até ao dia 27 de Maio) que parece vir da tradição da Commedia dell´arte e onde Marivaux ataca os seus contemporâneos pintando com justeza a condição servil. O cunho de grande sinceridade que irradia do teatro do autor francês toca-nos ainda hoje e perdura. Gil Salgueiro Nave encenou com brio e sabedoria esta peça com finalidade filosófica e deu-lhe uma empatia vertiginosa.

Eis um espectáculo que merece ser visto por gregos e troianos, perdão, covilhanenses e outras gentes interessadas ou não em mudar o statu quo social e afectivo. É verdadeiramente com peças assim que o teatro cumpre a sua função de serviço público. O Teatro das Beiras está pois de parabéns por ter incluído este clássico no seu reportório.