InícioOpiniãoSignificados do Maio, o mês do amor…

Significados do Maio, o mês do amor…

Maria Antonieta Garcia

QUAL novilho à solta, Maio deleita-se com as chispas de luz que se ateiam na noite… Mês de flores e de trovoadas. De amores e de tristura. Maio sedutor, simpático e feiticeiro. Tormentoso também. Quem o entende?

Nas aldeias, não fosse o demónio tecê-las, a 30 de abril já se tinham concertado as maias para adornar portas e janelas. Com giestas amarelas acabadas de florir, faziam-se ramalhetes que protegiam as casas de trovoadas, de maus-olhados e de outras diabruras inomináveis. Como? Porquê? Quem decifra os caminhos do sagrado?!

Não o certificam os evangelistas São Lucas ou São Mateus. São outros homens com outras sabedorias que divulgam que o costume das maias germinou, quando Jesus nasceu; então, soldados a mando de Herodes, quiseram matá-lo. Acreditando que se escondia numa determinada casa, um Judas qualquer aconselhou que colocassem na porta, um ramo de giestas para a identificar. Facilmente o prenderiam, no dia seguinte. Não conseguiram! Sem ninguém saber como (o segredo nunca foi desvendado e vão lá muitos séculos), no dito dia, todas as portas da povoação apareceram ataviadas com as maias. Como encontrar Jesus?

Conta-se também que, na altura em que a Virgem fugia para o Egito, marcou as veredas por onde passava com raminhos de giestas amarelas, para não se perder no regresso. Estranha-se a cartografia? Indo de Belém para o Egito andou por aqui? Mas que interessa se quem esclarece é gente com muitos anos e testemunha tudo isto de ouvir dizer ao “avô que tinha mais de cem anos, e já o avô dele e os mais antigos sabiam?!”

Mês para acontecimentos misteriosos? Maio! Porque até há quem ria, quando justifica que o raminho das giestas se coloca nas portas e janelas…porque o Maio é tolo! Será?
O Maio deseja-se e teme-se, tão contrário se mostra a uma ordem natural. De repente, em fúria, range os dentes, estrondeia relâmpagos, ribomba trovões, arremessa raios… para nos presentear logo depois, com o aroma a terra molhada, a sua luz e a ternura de gentes e de bichos cativos de amor.

Em aldeias beiroas, há até um Maio-Moço personagem de uma longa história. Não envelhece. Cachopo garrido traja giestas amarelas, as maias, e urzes, tojo, roselhas rosa forte, rosmaninho, malmequeres, papoilas vermelhas… Colhidas em caminhos velhos, em terrenos baldios, nos muros, parece não haver frio que tolha as flores ou sol que as seque, tanto resistem! Semeiam fragrâncias únicas, muitas cores, encantam, atraem, e, algumas até curam mazelas. Com estas flores vestiam, as raparigas novas o Maio-Moço; traziam-no, então, para a rua, passeavam-no, cantavam e dançavam à sua volta, atordoadas, desafiadoras. Esconjuravam malfeitorias, abrigavam rubores e amores. Bem perguntava Zeca Afonso: Maio, maduro Maio,/ Quem te pintou?

Fértil e lindo este quinto mês do ano perde a cabeça com o que vê: “Em Maio, as cerejas uma a uma leva-as o gaio; em Junho a cesto e a punho”/ ou: “Em Maio, come a velha a cereja ao borralho.” Tempo de uma farturinha sagrada, de agradecer aos deuses, todo o beirão sabe que, no campo gentes, aves e outros cantam: “Do castanho ao cerejo, mal me vejo. Do cerejo ao castanho, bem me avenho.”

E as maias? Maia se chamou, uma deusa da Primavera, mãe de Mercúrio. Protegia os campos, aumentando a fertilidade da terra e dos animais. Ainda anda por terras da Beira…

Maio, mês das maias, do amor e da liberdade. Anunciou a boa nova, um poeta, sete anos antes da Revolução: “Lisboa tem um cravo em cada mão / tem camisas que Abril desabotoa / mas em Maio Lisboa é uma canção / onde há versos que são cravos vermelhos”. Manuel Alegre, o vate do país de Abril sabia: “Nós voltaremos meu amor nós voltaremos sempre / no mês de Maio que é o mês da liberdade / no mês de Maio que é o mês dos namorados”//. Voltaram! Em Abril / Maio.