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Rostos da emigração

Manuel da Silva Ramos

AS VIAGENS têm  sempre momentos inesperados. Há quase um ano viajava  eu no intercidades em direcção à Covilhã quando, a meio do caminho, encontrei o Joaquim Tenreira Martins. Depois de uma breve conversa sobre Bruxelas ( onde nunca fui) , os emigrantes portugueses, os nossos respectivos pais ( eram ambos alfaiates) , chegámos à literatura. Era fatal como o Jameson depois de uma bela iguaria. Disse-me que ia publicar um livro sobre pessoas singulares que tinha encontrado durante o tempo em que trabalhara no consulado português  em Bruxelas e citou-me o título da obra.

Como eu o achasse não muito bem conseguido, sugeri-lhe outro. Ele acatou e hoje é precisamente  com o título que tem esta crónica que o livro é revelado  em Lisboa, na Guarda e na Covilhã, depois de ter sido apresentado em Bruxelas no passado dia 3.

Quem é o Joaquim Tenreira Martins?  Desliguem o telemóvel, que eu já lhes explico. Nasceu em Vale de Espinho, uma freguesia do concelho do Sabugal, e frequentou o seminário do Fundão. Depois conseguiu o diploma de Teologia no ISET. Mas de repente, a sua vida que ia no sentido religioso, muda. De 1968 a 1970, vemo-lo operário na fábrica Movauto , na região de Setúbal, e depois durante um ano redactor na Assembleia Nacional. E de novo, é outro salto: emigra.

Em 1975, é Permanente sindical para os trabalhadores portugueses na Bélgica junto do Sindicato belga, a Confederação dos Sindicatos Cristãos. E no mesmo ano é nomeado Delegado da  Secretaria de Estado da Emigração. Em 1992 já é chefe do Serviço Social ao mesmo tempo que dá aulas de português na Universidade de Dunquerque, na França. Em 2015, aposenta-se.

Foram 42 anos a trabalhar com a comunidade portuguesa em Bruxelas. Isto valeu-lhe a condecoração de Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. E hoje apresenta o seu livro mais importante porque o mais vivido.  Mas não se pense que ele é um neófito na matéria. Publicou dois livros sobre as invasões francesas ( um sobre o Sabugal e as invasões francesas e outro sobre as tentativas de Massena assediando Ciudad Rodrigo e Almeida).

Publicou também um livro de contos sobre a sua infância raiana e inúmeros artigos em jornais regionais como A Capeia Raiana, Cinco Quinas, O Interior e na Bélgica, no Lusojornal.  E agora estes “ Rostos da Emigração”, a sua última obra, a mais audaciosa. São 23 contos cativantes todos ancorados na realidade quotidiana do consulado português de Bruxelas onde o autor deste livro foi assistente social.

Ao relatar estas histórias fascinantes, Tenreira Martins faz um retrato pitoresco e humano da emigração portuguesa com os seus dramas pungentes, os seus sonhos e pesadelos, os seus pedidos de socorro e a consequente ajuda do serviço social consular  que geralmente resolve tudo. Porque, diga-se desde já, a maior parte destas histórias terminam bem, com os casos resolvidos ou esclarecidos.

Dito isto, acrescente-se que a estrutura destas  histórias possuem  uma dinâmica de investigação policial com drama, conflito e resolução do problema. Além de estarem muito bem escritos, estes contos positivos têm um charme inconfundível  e um profundo sentimento de solidariedade e generosidade  humanas. Despretensiosos, eles atingem-nos porque fazem parte da corrente tumultuosa da vida.

Histórias de violência doméstica, de crimes que conduzem à prisão, de inquietantes nostalgias africanas, de mendicidade e de gastronomia bem  portuguesa, que às vezes  inflectem para o domínio da loucura e é então um autêntico regalo lê-las. É o caso da última narrativa do livro “ Venho visitar o meu primo, o rei da Bélgica”, em que o protagonista principal é o Joãozinho, um doente mental que tinha  uma obsessão que era visitar o primo, o rei da Bélgica. Comprou pois um bilhete de camioneta e foi de Portugal até à Bélgica depois de dizer à mãe que ia dar uma volta.

Foi encontrado a vaguear na cidade de Mons e a polícia apanhou-o e levou-o para a esquadra. Como os policiais não o compreendessem,  telefonaram para o consulado a pedir um intérprete e quem foi incumbido da missão foi o nosso assistente social, o narrador deste livro, que rapidamente resolveu o caso.

Outro conto, digno de um escritor profissional  consagrado, é “ O Mendigo de Bruxelas”, e que narra a vida de um clochard português que dorme na Gare Centrale da capital belga e que pede esmola em português. A  vida deste pedinte original é fabulosa  e quando no final do conto a sua situação se estabiliza,  a culpa é do assistente social que nós conhecemos  muito bem, o constante motor narrativo deste livro.

« O Estado paga-me para ouvir pessoas no consulado! É a minha profissão»  confessa o autor fraternal. E isto é corroborado pela Maria Manuela  Aguiar, a ex-Secretária de Estado da Emigração, que escreveu no prefácio : « A criação de serviços sociais junto dos consulados foi, de facto, o primeiro instrumento eficaz destas políticas de cunho humanista». Esta obra de um beirão convicto foi editada em português pela Edições Orfeu de Bruxelas mas antes já tinha sido traduzida para francês e publicada em 2016, em Paris, nas edições Harmattan. Numa ou noutra língua, o resultado é surpreendente.