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O romance do Fundão

Manuel da Silva Ramos

HÁ FINALMENTE um romance sobre o Fundão. E que romance! É um acontecimento de grande importância. Fernando Paulouro Neves ao escrever o seu primeiro romance sobre a sua cidade natal preenche um vazio que parecia inexorável.

Como o “ Ulisses” de Joyce, o “ Berlim Alexanderplatz” de Doblin ou o “ Café Montalto” do autor desta crónica, “ Fellini na Praça Velha” é uma maravilhosa narrativa que tem como personagem principal uma cidade. Aqui a cidade do Fundão. E dentro desta urbe jocosa, ridente, siderante,  existe um indivíduo que manobra os cordelinhos: é o ousado marionetista das pessoas, aquele que titila, lisonjeia falsamente, mente descaradamente,  descasca nos artolas e nos pobres de espírito mas também nos importantes.

O seu nome é Timã. Armando Paulouro, tio do autor. É também uma espécie de Mefistófeles com piada que através do riso tenta modificar o mundo. Timã frequenta o Café Aliança e é neste café que muitas das formidáveis histórias deste livro são contadas ou “tocadas”, sob a batuta do iconoclasta e irreverente Timã que é do reviralho.

Este romance cheio de nostalgia e de riso e que é um hino extraordinário à cidade do Fundão, começa no Café Aliança e termina no mesmo café, que ainda hoje existe pacatamente, contrariamente ao café de outrora, palco sempre cheio de mundo e de agitação. Ao mesmo tempo que imortaliza o Café Aliança e a sua cidade, Fernando Paulouro tira do esquecimento  figuras notabilíssimas ( muitas reconhecíveis mesmo com pseudónimos) que viveram um tempo de desgostoso  fascismo, de fomes e silêncios pesados mas também de amores clandestinos, de procuras incessantes de felicidade humana dentro dos condicionalismos da época.

Estamos a falar dos finais dos anos cinquenta e princípios dos anos sessenta do século passado  em que o autor deste livro é um miúdo sensível, atento aos outros e com um olhar pertinaz e inteligente sobre este universo provinciano  também cheio de magia, fascinação e tristeza.

O que é verdadeiramente surpreendente nesta obra é como Fernando Paulouro, ao falar abertamente dos outros, exuma a sua infância que fica sempre em segundo plano mas que está  presente como os cartazes de um filme semanal pré-programado. Já sabíamos, pelos seus escritos anteriores e pela sua postura jornalística, que o autor de “ Fellini na Praça Velha” pensa como  Orwell que dizia: « O meu ponto de partida é sempre um sentimento de militância, uma noção de injustiça.»

Aos esbirros da PIDE que prendem o Timã, Fernando Paulouro contrapõe o bom povo do Fundão que no fim do livro acolhe em manifestação ruidosa , na estação de caminho de ferro, o prisioneiro do Aljube. Mas esta obra que regurgita de  figuras inolvidáveis é um poderoso e monumental livro de iluminados que mereciam todos ser santificados. Nesta galeria original e pitoresca, única na literatura portuguesa dos últimos anos, salientamos alguns: o Zé Palhaço que destruiu a televisão com um martelo à procura das pessoas que existiam lá dentro; o dr. Vermelhinho que fingiu de morto só para ver se as gentes  gostavam dele; o capitão Torgal que foi expulso do exército porque gostava de whiskizar-se e de livros proibidos e que uma vez fez continência com as duas mãos ao comandante do regimento; o Pelingrino que assobiava o Raspa e que detestava os cucos dos relógios do ourives Saraivinha que lhe faziam concorrência; o senhor António Cacanheira que transportava sempre uma fome homérica e que se guiava na vida pelos cheiros das cozinhas alheias; o tipógrafo Zé Pessoa que tinha uma imaginação diabólica e que dizia que o seu cuspo colava tudo, etc, etc.

E que dizer desses fundanenses generosos, rectos, amigos das crianças e dos pobres? São heróis para o miúdo Paulouro que entra na Papelaria Cavalinho e sai com rebuçados na mão: o senhor Almeida, grande pasteleiro e filósofo, cuja filosofia era nunca chatear-se; o D. Arturo Lema que pintou o pano de boca de  cena do teatro do Casino Fundanense e que vivia com dificuldades; o senhor Joaquim Judeu, proprietário da Papelaria Cavalinho, e que era o último judeu do Fundão, etc, etc. « A memória, para este homem,  sempre foi um acto de resistência » diz a certa altura o autor de “ Fellini na Praça Velha”.

Podíamos finalmente dizer  isto também deste romance tão especial em que a coerência do conjunto é criada unicamente pela unidade de um tema: o café. Este é pois um romance em forma de variações, ao gosto de Milan Kundera ( “ A Arte do Romance”), com uma ordem aberta, onde não há uma unidade de acção mas uma unidade temática. Prezo e gosto deste género de literatura que espelha Portugal, descreve o país real e os sonhos das suas gentes. Não podíamos esquecer a Irene, a musa afrodisíaca da última página, que voltou à sua cidade e ao Café Aliança para se lembrar dos tempos passados .

Não saberemos nunca quais foram os seus pensamentos depois de ninguém a ter reconhecido. Mas isso não importa. O que importa realmente é que Fernando Paulouro escreveu uma saga monumental e indispensável sobre a sua cidade e que é um livro de memória, de resistência e fidelidade às raízes. No dia 31 de Março, na Covilhã, quando da apresentação do seu livro de ensaio crítico “ A Materna Casa da Poesia”, eu disse que este ano ele ia explodir. Ainda não passou um mês e eis que este romance indispensável está já nos escaparates. E ontem ele ganhou o Prémio Eduardo Lourenço. Isto quer dizer que o grande talento de Fernando Paulouro está aí, à nossa porta. Para vos fazer rir e meditar – coisas muito raras na literatura actual portuguesa.