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A real dimensão da saudade

Nuno Francisco

Eis as ruas de novo tomadas pela vida, pela presença que se enleia no quotidiano. Vidas que se multiplicam por esta Beira fora, por essas aldeias que se semeiam pelos vastos campos da saudade, por entre o uivo da ausência que década após década insiste em ecoar por estas geografias. Sem contemplações e sem reservas, estes são os territórios que alimentaram as grandes vagas da emigração, de onde poucos saíram por aventura, de onde a maioria partiu pela necessidade premente de contrariar um futuro que pouco mais tinha para oferecer do que desesperança.

Tanto desta Beira é a permanência deste legado da partida; tanto destas aldeias e vilas está entregue ao silêncio que se ergue como testemunha última de um ponto de partida e de retorno incerto. São estes lugares que, pelo silêncio e pela ausência, nos dão um retrato preciso de um certo país que se esvaiu demograficamente porque o sonho, aqui, sempre esteve longe demais, porque sempre exigiu sacrifícios em demasia em troca de quase nada, porque sempre pediu quase todo o suor e todas as lágrimas que cada um podia carregar. Olhe-se, então, para estes lugares de partida, e pergunte-se porque não ouvimos quase ninguém, porque não vemos quase ninguém. Estes lugares de constantes partidas tem uma exceção vincada que se celebra, sobretudo, este mês.

Este regresso dos emigrantes às terras de origem tem algo de absolutamente extraordinário porque é nesta intangibilidade, nesta poderosa força que os impele ao regresso anual, nesta romaria às suas aldeias que nos apercebemos da real dimensão da saudade. E é, sobretudo, de saudade que se trata; esta manifesta materialização de uma vontade que trespassa tantos milhares de homens e mulheres que, pelo menos uma vez por ano, regressam ao seu chão, ao lugar que lhes preenche a memória, aos seus, àquelas velhas tradições que se recriam e que tornam a passagem do tempo menos densa. E, acima de tudo, a felicidade que se nota pelo simples facto de estar. Basta estar. Basta olhar. Basta estar aqui para derrotar aquela saudade que não foi na mala, mas que se carregou sempre no coração.

Nos recentes “Labirintos da Memória II”, as jornadas sobre emigração, que decorreram nas cidades do Fundão e do Sabugal no último fim de semana, houve uma intervenção que poderia ilustrar todo este fenómeno da emigração. Abílio Laceiras, emigrante em França, deixou um emocionante testemunho do que foi a aventura do “salto” pela fronteira, da fuga a caminho de França, deixando para trás o seu país, o seu chão, a sua família. Abílio Laceiras não encontra romantismo nisto, porque esta aventura foi, acima de tudo, fruto de uma severa necessidade que o obrigou a deixar os seus lugares e rumar ao desconhecido. Abílio Laceiras olha para a sua vila de Silvares, no concelho do Fundão, e para a sua Beira e confessa, que ainda hoje, lá longe, pensa no som da água a correr nas fontes da sua terra e imagina a tonalidade ímpar daquele céu azul que o viu crescer. Oregresso é isto; é esta necessidade de tantos beberem água nas fontes da infância, da premência de olharem em silêncio o céu sobre a aldeia. Este será um dos retratos mais fiéis daquilo a que chamamos “saudade”.