InícioOpiniãoA questão do contexto

A questão do contexto

Nuno Francisco

Ainda está por fazer um balanço sério sobre a real importância dos institutos politécnicos e das universidades no Interior do país e que está muito para além do que é tangível através de gráficos bem alinhados. Lá se irá um dia. Para já, esqueçamos os parâmetros habituais de análise comparativa de desempenhos e partamos do pressuposto fundamental sobre o qual tem que se erguer uma qualquer análise séria sobre o Interior: A desigualdade territorial distorce a capacidade de atratividade e de afirmação de uma região, exigindo muito mais aos seus atores para se manter um desempenho positivo.

Vejamos este exemplo: Uma universidade sediada na Covilhã, no coração da Beira Interior, não tem as mesmas condições de competitividade de uma universidade localizada em Lisboa, Porto ou em outras cidades dos grandes polos económicos e demográficos do país e que, de resto, congregam a grande maioria das vagas no ensino superior. A universidade que tem o nome de uma vasta região interior que vai do Douro ao Tejo, está no coração de uma das geografias do país mais despovoadas e desfavorecidas economicamente que, entre 2001 e 2011, perdeu mais de 30 mil habitantes, e que se encontra, na generalidade, abaixo da média do poder de compra nacional e muito abaixo da média dos concelhos onde estão as universidades de Lisboa e Porto.

A UBI vive, como nós, no coração de uma região onde, pela histórica escassez, cada cêntimo vindo de iniciativa pública ou privada é um bem precioso. Apesar de tudo isto, com o acrescento de ser ainda uma jovem universidade pública no panorama nacional, entrou recentemente nos ranking´s das melhores universidades do mundo. E, sim, a UBI continua na Covilhã e na Beira Interior, a viver exatamente com os mesmos problemas de contexto que poucas universidades nacionais conhecem. Entretanto, só nesta primeira fase do concurso nacional de acesso ao ensino superior ocupou 95 por cento das vagas.

Estes factos, só por si, deveriam ser evidentes e de relevo, alcançáveis à vista desarmada a uma longa distância, nomeadamente a partir de Lisboa. Deveriam ser tão límpidos que pudessem evitar a não entrega, por parte da UBI, do orçamento para o próximo ano como forma de protesto e que o reitor, no recente discurso de tomada de posse para um segundo mandato, tivesse que se referir à “asfixia financeira que se agrava de ano para ano e que resulta de um subfinanciamento já crónico”, que obriga uma universidade a operar em tão adverso cenário social e económico a exercer, há varios anos, constantes esforços para se manter a funcionar dentro dos padrões da normalidade.

Um subfinanciamento que António Fidalgo classificou como “indevido, injusto, gritante pela dimensão e escandaloso pela duração”. O real problema que se coloca à região – porque isto é replicável noutros setores e atividades – é que a Universidade da Beira Interior não exige mais por estar em situação de clara desvantagem perante outras universidades. O que pede é igualdade de tratamento na afetação de fundos para o seu funcionamento, independentemente das desvantagens de contexto com que tem que lidar diariamente. Ou seja, pede, apenas, o “favor” de não ser duplamente penalizada.