Promessas

Estrela Correia

Por motivo que desconheço e, infelizmente, já não conseguirei descobrir, a minha mãe resolveu fazer a promessa de vestir de anjo as suas meninas, ainda pequenitas, para desfilarem nas procissões dos Passos e do Enterro do Senhor.

Excitação profunda para as crianças.

Maravilha das maravilhas, ir de vestido comprido, cheio de goma, que baloiçaria para um lado e para o outro, com uma coroa na cabeça, que, por certo, haveria de brilhar muito. O entusiasmo era crescente, contando-se os dias para fazer parte do exército do Senhor.

Mal sabíamos nós, que teríamos de fazer a recruta, como criaturas pretendentes a servir nas forças desarmadas do céu.

Assim, esse treino contou em passarmos uma tarde no cabeleireiro, para nos porem uns” bigoudis”, ensopados num óleo mal cheiroso, tudo à conta de ficarmos com o cabelo à anjinho, de calçar novas sandálias de tiras, que apertavam os pés, e, ainda, vestir um colete com aplicações de metal para apoiar as asas, que tinham de ser apertadas violentamente às costas – como foi duro ser anjo de faz de conta!

Tudo isto foi feito, para que, finalmente, pudéssemos ser apresentadas na parada, onde anjos, serafins, arcanjos e querubins não faltariam, e fazer o desfile das forças asadas do Senhor.

Bem, mas lá chegou o dia em que eu, pela mão do meu pai, e a minha irmã, pela mão do padrinho, vestidas como os anjos da terra o devem ser, fomos ter à Igreja da Misericórdia, donde se organizava a procissão, em trajecto de sobe e desce, que acabaria no Calvário.

Tudo correu bem, durante os primeiros duzentos metros, até que a minha irmã, que teria quatro anos, se começou a queixar dos pés, do calor, da coroa, tinha sede e estava cansada, tanto gemeu e fez caramunha que conseguiu o abençoado e almejado colo.
Havia uma cruz de metal-nestas coisas de procissões, há sempre uma cruz- que ela levava na mão e ma queria entregar. Eu, que tinha tido uma inveja enorme por não ter cruz (que fazia toc,toc,toc nas pedra da calçada) e  contrariada por me obrigarem a ir de mãos postas, tipo, Nossa Senhora De Fátima, já não a queria, já não me apetecia.
Então, ao vivo e a cores, aconteceu uma cena, digna de páginas de Eça.

A cruz caiu nas minhas costas, atirada pelo rabugento e ensonado anjo, o meu braço voltou-se, agarrou, agarrou, até ficar com uma asa na mão, tudo isto, embalado por gritos, regado com choro e abrilhantado por palavras de elogio mutuo, que fizeram corar o meu pai e parar a procissão, entre sorrisos de uns e censuras de outros.

Ali e já, acabou para nós o desfile processional – o meu pai já tinha chegado ao seu Calvário.

A minha mãe, só chegou a ver os seus anjinhos já desasados e sujos, estafados e temerosos e para cúmulo dos cúmulos, desertores do exército celeste.

As censuras que esperávamos, nem começaram, porque o meu pai, muito calmo, aconselhou:

-Menina, quando fizeres outra promessa, deixa as filhas sossegadas, vestes-te tu de anjo, que eu terei muito prazer em te acompanhar.

Lá em casa, acabaram as procissões e as promessas por interposta pessoa.