InícioOpiniãoFoi-se a promessa, viva o compromisso

Foi-se a promessa, viva o compromisso

Nuno Francisco

O Valor facial da “promessa” anda tão por baixo que  a maioria dos candidatos nem sequer se atreve a pronunciar a palavra que marcou tantas campanhas eleitorais de antanho por esse cosmos autárquico. “Prometer”  foi um verbo que caiu em desgraça, substituído pelo “compromisso”,um substantivo bem menos veemente e assertivo.

O “eu prometo” é, hoje, uma caricatura de uma  anacrónica forma de fazer política, onde a retórica raramente coincidia com o ato e o exagero era a medida de toda a palavra exacerbada para se alcandorar na vitória.  A questão é que o eleitorado há muito que dá mostras de não estar disposto a embarcar neste periódico exacerbamento de boas vontades com pouca correspondência na realidade. Tem, também, pouca tolerância a foguetórios inúteis e com pouca ou nenhuma implicação na real melhoria do quotidiano da coletividade. Assim, rei  morto, rei posto: morreu a promessa, viva o compromisso!

Este assunto é ainda mais relevante quando sabemos que  muitas autarquias não vivem em desafogo financeiro e que as prioridades terão que ser recentradas no retorno de cada euro investido nas  várias estratégias de ação municipal. Mais: sabemos – e sentimos – que a maioria das famílias portuguesas  está a começar a recuperar de uma traumática passagem por um período de redução de rendimentos, aumento de impostos e do desemprego, tendo-se solidificado uma forte resistência moral ao esbanjamento de recursos públicos  em redundâncias e improdutividades.

A intolerância dos eleitores a uma certa forma de fazer política é uma evidência que clama por uma ponderada gestão dos recursos públicos, onde cada euro seja potenciador de uma real melhoria da qualidade de vida e da criação de condições para tentar estancar a galopada do despovoamento, que enfraquece, de ano para ano, a região, não havendo município algum imune ao fenómeno. Assim, o que a mudança de terminologia esconde é a perceção da esfera política de que há conceitos que ilustram depreciativamente toda uma forma de olhar para a coisa pública; um precioso breviário de como não fazer política.

Pela Beira, raramente esteve tão presente – e bem – a transversal prioridade de os municípios serem os principais  catalisadores de investimento privado para o  território. Finalmente,  ganhou-se  a  perceção de que é a criação de emprego que garantirá o futuro e que o despovoamento não é apenas um vago conceito que de quando em vez salta para as páginas dos jornais para nos lembrar da nossa incómoda condição. Porque por mais equipamentos que se apregoem,  por mais equipamentos que realmente se façam (que nunca são os apregoados), é preciso que alguém os utilize, os rentabilize, que lhes dê propósito, pois o propósito de todo o betão são as pessoas e não o betão em si, como alguns ainda julgarão.

O que nós, eleitores, procuramos é simples: o bem público, hoje, no Interior  é, sobretudo, fazer com que olhemos em volta e não ter como única certeza  que em breve chegará o dia de fazer a mala e rumar às grandes áreas metropolitanas do litoral ou ao estrangeiro. E não ter essa certeza é aperceber-nos de que se  está realmente a tratar do nosso território, dando-lhe futuro para além do foguetório das “promessas”.