InícioOpiniãoÉ preciso resolver a questão do Interior, de uma vez por todas!

É preciso resolver a questão do Interior, de uma vez por todas!

Miguel Nascimento

Há muito que me bato pelas questões da interioridade. Não deixo morrer a nossa reclamação colectiva. Muitos fazem o mesmo. Cada um faz o que pode. Mas, o Interior vai morrendo aos poucos, como sabemos. O incêndio do dia 17 de Junho em Pedrógão Grande que matou 64 pessoas, fez mais de duzentos feridos, dizimou muitos hectares de floresta, queimou casas e empresas, é um exemplo trágico e consequente do abandono do Interior e da desertificação de uma parte muito significativa do território nacional.

Governo após governo, uns com mais ideias e outros com menos, a verdade é que todos definem algumas medidas avulsas para o Interior mas não há nenhum que resolva a questão, de uma vez por todas! Nenhum governo fica bem nesta fotografia! Uns atacam o Interior fechando tudo o que podem. Outros ensaiam medidas e fazem diagnósticos sobre diagnósticos. Estudam e voltam a estudar o que já foi estudado. Agregam e desagregam ideias.

Entretanto, o tempo vai correndo contra o Interior. Os governos mudam, renasce a esperança no período pós-eleitoral para logo a seguir se desvanecer. Afinal tudo não tinha passado, mais uma vez, de promessas eleitorais que ficam quase sempre por cumprir.

Entretanto, o Interior vai morrendo aos poucos, de forma lenta, ou violenta e trágica como aconteceu há quase 15 dias neste inferno negro que se abateu sobre o Interior. O tempo passa, as pessoas vão envelhecendo, vão perdendo forças para amanhar a terra e cuidar da floresta. Os mais novos partem, para Lisboa e para o estrangeiro. Vêm, ciclicamente, visitar a terra em dias de festa e pelo natal.

Cada vez menos, porque os seus vão morrendo e tudo vai morrendo aos poucos. A única coisa que aumenta é o deserto que vai tomando conta de um território cada vez mais vazio e com menos esperança no futuro. Em abono da verdade devo reafirmar que a resolução dos problemas que afectam o Interior não é fácil.

É, sobretudo, uma questão política que urge resolver para não exibirmos ao mundo a vergonha de um país de risco ao meio, com quase tudo no Litoral e quase nada no Interior. Este é um problema político mas não é um problema de política partidária! É uma questão de regime! Não tenho nada contra o Litoral do país ou contra Lisboa. Tenho é tudo a favor do Interior! Esta é a minha terra, é o chão que piso e quero que ela tenha futuro! Sou é contra o centralismo bacoco que há séculos defende que tudo deve estar em Lisboa.

Isso é um erro recorrente que tem levado Portugal a um crescimento assimétrico e ao estado em que está, com um território Interior desertificado, envelhecido e debilitado. Precisamos de um país coeso e equilibrado e com futuro para todo o território por igual e no respeito pelas suas diferenças. Somos um país pequeno.

Quase que se torna difícil compreender que se divida entre Litoral e Interior. Mas, como sabemos, estamos cada vez mais longe de Lisboa, não pelas acessibilidades, mas pelo resto e por tudo. A resolução desta questão não acontecerá por palavras, por textos, por manifestos, por intenções e muito menos através da mensagem política daqueles que juram defender o Interior apenas para obterem mais uns votos em período eleitoral.

A questão do Interior só se resolve quando existir um pacto de regime para 20 anos (pelo menos) que defina as regras e estabeleça prioridades e investimentos para que o Interior, paulatinamente, possa recuperar a sua coesão e desenvolver-se de forma equilibrada. A esperança já só encontrará eco nas acções porque as palavras estão gastas há muito!