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A pesca da garoupa nas Beiras

Paulo Duarte

O título pode parecer desconcertante para uma crónica sobre turismo, mas no final talvez faça sentido. Veremos.

Para quem não sabe, a garoupa designa diversas espécies piscícolas abundante na costa portuguesa, muito apreciadas gastronomicamente por nacionais e estrangeiros devido à sua firmeza e sabor. Mas nem só o mar português é rico em pitéus, também em terra firme abundam petiscos que justificam a admiração daqueles que nos visitam e os experienciam.

A discussão sobre o Turismo na Região Centro, no geral, e nas “Beiras” – chamemos-lhe assim para evitar melindres e invejas patetas – em particular, já vai longa sem que verdadeiramente se tenha até hoje visto uma estratégia ou ação integrada no sentido de valorizar aquilo que é emblemático e deve ser destacado.

A riqueza deste vasto território no que respeita a recursos turísticos assenta em dois pilares estruturais. O primeiro consiste no espólio herdado de tradições e valores culturais, um conjunto de valiosas e humildes manifestações culturais, religiosas e arquitetónicas ainda hoje profundamente enraizadas na sociedade local. Nestas se incluem as tradições Pascais recentemente vividas e entre as quais, a tradição das ermidas no Fundão, uma representação ao vivo da caminhada de Jesus Cristo até ao calvário assegurada por diversas instituições da cidade, constitui um exemplo marcante.

O segundo pilar firma-se no património natural e paisagístico. Portugal no geral e as Beiras em particular, são um destino de excelência para o Turismo de Natureza, dispondo de um riquíssimo património natural assente numa enorme variedade de paisagens e elevada diversidade de habitats naturais com diversas áreas classificadas pelos invulgares valores naturais e de biodiversidade a nível da fauna, flora e da qualidade paisagística e ambiental. Um recurso que não pode ser desprezado e muito menos desbaratado.

Associemos a estes dois pilares os saberes e sabores ancestrais da gastronomia local, a oferta de alojamento, o bom acolhimento associado à simpatia das pessoas e o solarengo clima e temos os ingredientes para um turismo de sucesso. Naturalmente, o perfil do turista de hoje não é igual ao do turista de há 10 anos e será diferente do perfil daqui a outros 10 anos. Um turista que vai querer que a tradição, a natureza e a tecnologia deem as mãos e caminhem juntas, exigindo que se combinem o património natural com os recursos contruídos, os eventos e as tradições, tudo combinado em pacotes experienciais ímpares e marcantes. Para acompanhar esta evolução é necessário aprender a combinar o tradicional e o moderno de forma harmoniosa, pois o turista de hoje e de amanhã vai reclama que a árvore com séculos de história lhe proporcione o indispensável Wi-Fi necessário para a poder mostrar ao mundo em direto e na primeira pessoa. Em modo selfie.

Perceber o que há a fazer requer a promoção de novas abordagens de estudo e planeamento turístico realizadas numa ótica de marketing, visando o recurso a métodos inovadores de recolha de informações sobre as atividades e preferências dos turistas, que olhem mais além das gastas e pouco úteis estatísticas sobre dormidas publicadas pelo INE. Só um turismo visto pelos olhos do turista e dos atores no terreno, apoiados no saber de especialistas permitirá conceber produtos baseados nos valores endógenos da região de modo integrado e concertado, focados em proporcionar experiências inconfundíveis.

Por tudo isto, de pouco adianta tentar promover a pesca da garoupa nas Beiras, onde, simplesmente, não há mar.

(Uma referência, devida, ao meu amigo e companheiro de muitas lutas, Ricardo Gouveia Rodrigues pela imensa responsabilidade no título desta crónica.)

pduarte@gmail.com