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Perguntas à espera de respostas

Nuno Francisco

1 – NÃO há qualquer racionalidade naquilo que o país continua a viver. Escapa à compreensão humana o grau de destruição que nos infligimos todos os anos, reduzindo parte substancial da floresta nacional a cinzas. Aquilo que o jornalista da RTP João Fernando Ramos escreveu  na sua página pessoal do facebook, ao constatar que perto de Coimbra tinham começado vários incêndios quase simultaneamente, dá que pensar e  ilustra uma maior proximidade àquilo que o país continua a enfrentar:  E deu-lhe um nome: “Terrorismo”.

Se alguém aterrasse por mero acaso neste país e tivesse que ler a realidade através das imagens televisivas e das  páginas de jornais pensaria que estamos em guerra, tais os cenários de destruição apresentados. Mas não, não é de guerra que se trata. Não é de nenhum conflito bélico, nem de nenhuma catástrofe natural de exceção. São as florestas nacionais a ir de encontro ao seu destino: arderem mais cedo ou mais tarde. O que os portugueses gostariam de saber é como é que se instituiu esta rotina de destruição nacional.

Como é que um país tão pequeno tem a maior área florestal ardida da Europa em termos absolutos. Como? É esta a resposta que nos devem há décadas. O porquê deste estranho ritual de todos os verões: milhares de bombeiros a lutar contra muros de fogo que ceifam bens e vidas. As polícias levam, todos os anos,  dezenas de suspeitos perante a Justiça por suspeita de fogo posto, mas o país continua entregue à destruição sazonal, com centenas de ignições diárias, tantas delas com estranhos timings e localizações. Arde porque, em muitos casos, houve uma mão que o fez arder. Ou várias mãos. “Seis fogos na zona de Coimbra na tarde de hoje [domingo]. Seis fogos em zonas complicadas. Isto é terrorismo. A quem interessa um país a arder?”, perguntava o jornalista. Até quando é que iremos assistir a esta destruição de um país? Quando é  que se acabará de vez com esta agonia?

2 – Na última semana, a Comunidade Intermunicipal das Beiras e Serra da Estrela levou até Lisboa uma lista de reivindicações sobre as acessibilidades na região. O comboio que levou autarcas da Covilhã, Fundão e Sabugal até Lisboa foi o meio escolhido e, naturalmente, não o foi por acaso. A ironia é esta: As obras de beneficiação da Linha da Beira Baixa até à Covilhã tiveram como sequência, em 2011, a introdução de material circulante desajustado das exigências mínimas  de conforto.  O anacrónico Intercidades que por aqui circula piorou substancialmente o serviço prestado, motivando inúmeras e recorrentes queixas. Um comboio que é também uma imagem do estado da arte da cooperação regional.

Que outras regiões teriam permitido, sem se opor fortemente, que após um investimento de muitos milhões na eletrificação de uma linha, de seguida se colocasse ao serviço este tipo de composições, numa degradação evidente do serviço prestado às populações? Teria isto sido possível noutras geografias? É que aqui foi.  Esta iniciativa (louvável) teve, para já,  eco junto do Governo, que disse que o material circulante será  melhorado até ao final das obras de eletrificação do troço Covilhã – Guarda. Esperemos que esta feliz decisão, pelo menos, reponha nos carris aquilo que nunca deveria ter de lá saído.